Fiz a conexão Veneza-Zurich e depois Zurich–Genebra. No aeroporto havia uma van para levar os hóspedes do aeroporto ao hotel. Fiquei num Hotel-Cassino, 5 estrelas, a 5,7 minutos do aeroporto. Nunca imaginei que pudesse ter um aeroporto tão próximo e ele não era tão pequeno, como vim a sentir na pele, ou melhor dizendo, nas pernas cansadas de andar, no dia seguinte. No hotel cumpri as formalidades de praxe, desembaracei-me das bagagens e imediatamente fui cuidar do programa do dia seguinte. Lá havia até uma sala, com duas funcionárias para este propósito. Em primeiro lugar foi reservado para o dia seguinte um tour pela cidade seguido por um passeio pelo lago Léman, batizado de lago Genebra pelos vizinhos suíços. Perguntei à funcionária onde poderia comprar uma capa para guardar meus óculos, já que tinha perdido o original. Comentei que no Brasil as casas de ótica davam de graça e uma das moças comentou que lá era preciso pagar até o ar que se respirava. Depois de ter jantado voltei para contar, a propósito dos altos preços, que uma água mineral custava, não lembro se 6 ou 8 francos. Até ela ficou admirada com o alto preço. Voltando ao meu pedido: onde comprar um estojo para meus óculos, a funcionária entrou no Google , disse que só tinha downtown, deu-me um mapa, e escreveu num papel os turn on the right ou on the left (não me lembro) na rue du mont blanc, depois numa rua Berne, antes pegando um trem. Para pegar o tal trem tinha que tomar a van que trasnsportava os hóspedes hotel-aeroporto ou vice-versa e atravessa-lo para chegar à estação. Com tudo planejado, fui para o quarto, tomei um banho e vesti-me para ir ao cassino. Como era o fim da viagem minhas roupas já tinham sido mexidas e remexidas, e só então me lembrei que tinha levado uma roupa menos casual para este fim, que poderia ter usado para ir à Ópera em Viena. Mais uma vez tenho que dizer que não adianta chorar em cima de leite derramado. Não fui à Ópera, mas, fui ao cassino. De início já não gostei por ele estar localizado no subsolo do hotel. Para mim, a localização no subsolo deu impressão de clandestinidade uma vez que o hotel era tão grande. É claro que isto é puro preconceito, uma vez que o jogo é proibido no Brasil. Tive que mostrar meu passaporte, ou deixar lá na entrada, não me lembro. Eu e a moça que ficava na porta não estávamos nos entendendo porque ela falava muito pouco inglês, mas, uma mocinha, que não deveria ter mais de vinte anos serviu de interprete. Fiquei mal impressionada por ela ser tão jovem e estar jogando.

Nunca tinha entrado num cassino ( nem mesmo num bingo) mas já tinha visto uns filmes que mostravam cassinos todos glamourosos, começando pelo croupier. Num impecável smoking ele dizia: “mesdames et messieurs, faites vos jeux” e depois de ter girado a roleta cantava, por exemplo, “dix –rouge”, aliás o dez é preto. Lá nesse cassino não havia qualquer glamour, muito ao contrário, o ambiente era super deprê. As moças( as croupiers ) tinham um ar de tédio total, não falavam nada, e num pouco caso total giravam a roleta e depois passavam aquela espécie de rodinho, levando embora todas fichas. A casa tinha sido a ganhadora. Depois de ter deixado os 20 euros que me dispusera a gastar, (em francos deu mais de 20 e a mocinha insistiu para que eu fizesse variadas apostas), dei outra olhada no ambiente, para me certificar se minha primeira impressão (ambiente depressivo) estava correta e fui para meu quarto. Antes, tinha parado na recepção não sei para quê, e ouvi uma música sendo tocada que me era muito familiar. A despeito de todos os meus esforços não conseguia lembrar seu nome. Indagando, vim a saber que era a “Garota de Ipanema”. Nada mais adequado para este cinqüentenário da bossa nova.

O café da manhã neste hotel começava a ser servido às 6,30 horas e pontualmente neste horário entrei no refeitório. Tomei um farto café como se estivesse prevendo o alto gasto de calorias, andando, andando, andando, andando,……… Veneza tinha sido fichinha.

Tomei a van do hotel, fui para o aeroporto e atravessando-o, fui para a tal estação de trem. Precisei me informar como tomá-lo, já que havia uma composição enorme parada na estação. Quando cheguei na porta de embarque ela estava fechada. Fiquei olhando para a porta, feito tonta, até que vi um botão verde e outro vermelho escrito respectivamente: ouvrir e fermer (ou no particípio passado: ouvert e fermé, que significam abrir e fechar ou aberto e fechado). Depois de feita a descoberta, pressionei o botão verde, que era para abrir e entrei. Na primeira parada, conforme tinha sido instruída, desci e comecei a minha rotina destes meus 10 dias. Comecei a procurar a tal rua mont blanc , sempre perguntando, até virar à esquerda, ou a direita, para alcançar a rue de Berne onde encontraria a tal ótica. Finalmente cheguei ao destino. Entrei numa ótica que tinha uns óculos maravilhosos, todos com cara de caríssimos. Lá só tinha uma capa de couro puro que custava 60 francos. Perguntei se ele não tinha nada em plastic mas acho que por lá eles não trabalham com este material, afinal estamos falando de Genebra que, segundo disse uma guia, é a cidade mais cara do mundo. Muito gentilmente o sr. me disse que talvez eu achasse no Fulano, que tinha uma ótica localizada a não sei quantas quadras e onde eu chegaria lá depois de muitas viradas à direita ou à esquerda passando pelo Starbuck (não sei porque não esqueci desta indicação). Bem, de ótica em ótica, sem que ninguém trabalhasse com plastic, que evidentemente não combinava com aqueles óculos maravilhosos que nunca soube o preço, mas, aparentavam ser de alguns robustos cifrões, seguindo em frente até a rua X, virando à esquerda na rua Y e continuando sempre em frente por várias quadras, até chegar numa ótica que tinha uma capa de napa, ao acessivo preço de 9 francos. Fiz a compra na hora e agora tenho um elegante “protetor” para os meus óculos ostentando: na linha superior – JAQUES- e embaixo: Genève. Engraçado é que não tive coragem de comprar o guarda-chuva onde estava escrito VENEZIA mas o Jaques, Genève, eu acho muito elegante. Saí no lucro com minha perda, pela substituição, que em casa constatei que nem precisava, pois a tal capa não estava perdida, mas sim num lugar absurdamente inesperado. Creio que conheci o downtown de Genebra andando quilômetros, sempre em frente, com algumas viradas à esquerda, outras à direita, em busca de algo em plastic que definitivamente não se incorpora aos usos e costumes de genebrinos.

Depois de ter achado o que precisava, já que estava no universo dos relógios resolvi procurar um despertador digital Cassio, pois os meus já estão bem velhinhos. Sabia que lá não era o lugar ideal, pois relógios suíços e o que pretendia adquirir não têm nada em comum. Mesmo assim segui em frente, virando ou à esquerda ou à direita, conforme o que me indicavam, e nada. Confesso que fiquei mais impressionada com as óticas do que com as relojoarias. Os produtos vendidos por estas lojas não pareciam diferir muito das que encontro no Brasil. A precisão deve ser outra conversa, mas, a aparência não me deslumbrou da mesma forma que os óculos. Quanto ao despertador, nada de encontrar. Só me apresentavam aqueles despertadores comuns que pensei que nem mais existissem. Depois de muito entra e sai de lojas acabei encontrando uma loja que tinha uns três tipos. Gostei especialmente de um que, fechado, como se fosse um apetrecho de maquiagem, era ótimo para a gente levar em viagens, pois pelo seu tamanho cabia em qualquer bolsa. A vendedora e eu partimos então para os passos que se deve dar para marcar a hora do momento, a hora do despertar, desligar etc. Infelizmente tudo era feito na base de erros e acertos. Às vezes dava certo e outras não. Enquanto isso eu via o tempo passar e tinha que estar no local onde partiam os ônibus para os tours. Junte-se a isso um imenso cansaço por ter andado tanto tempo e a necessidade de parar em uma loja de souvenirs para levar alguma coisa de Genebra. Acabei desistindo do despertador digital, fiz minhas comprinhas e fui tomar o ônibus para o tour.

Pela primeira vez, em alguns anos de viagem, tive uma guia falando português. Isto até valeu o comentário de um senhor português que também nunca havia tido essa oportunidade. Aliás, contou ele que a população de Paris é de 2 milhões de habitantes e há lá 800 mil portugueses, (não sei se os números estão corretos mas foi essa a informação) e mesmo assim em Paris não fez um único tour com um guia falando a língua portuguesa. A nossa guia era casada com um português mas não falava a língua como os nativos do país, era de fácil intelecção, mais próxima da língua como falamos no Brasil.

O tour começou seguindo a ordem exata dos pontos turísticos que tinha assinalado nas minhas pesquisas e levado a folha impressa. Na região do lago encontra-se o jardim angaise, com seu relógio de flores e o Monumento Nacional. Preciso agora fazer um comentário a respeito da visão nestes tours. Por pouco deixava de ver o que estava sendo mostrado porque o ônibus passa rapidamente e as informações são muitas. Como a minha vista já não é uma Brastemp, não fosse o sr. português me mostrar estes pontos e não os teria visto. O bom mesmo é fazer como meu filho e minha nora: verdadeiras expedições exploratórias e tudo a pé. Como quem não tem cão caça com gato, continuei seguindo o roteiro confrontando com os dados que tinha levado. Cruzando a ponte do Mont Blanc, chegamos ao Monumento a Charles II de Brumswick. O monumento Brumswick é o mausoléu do Duque Carlos II de Brumswick falecido em Genebra, em 1873, e que legou a esta cidade a sua fortuna pessoal, elevada a mais de vinte milhões de francos, em ouro, e da qual uma parte serviu para a construção deste mausoléu. Disse a guia que esta não foi a única doação que a cidade recebeu, outras vieram de personagens de grande importância e que isto teria sido de um peso muito grande para a riqueza de Genebra.

Vimos, exteriormente, as organizações burocráticas como a ONU, OMC e a CRUZ VERMELHA. Li em algum site que por alguns euros é possível entrar nos bastidores destas organizações. Passamos também pelo Palácio da Prefeitura, pelo museu de História Natural, o Museu da Relojoaria, o Museu dos Instrumentos Musicais Antigos, a Universidade na Praça Nova e o Grande Teatro, onde está instalada a Ópera de Genebra. Em um determinado momento do tour a gente é transferido para um bondinho e, sendo esse meio de transporte mais lento, é possível ver mais atentamente os pontos turísticos, que, segundo a minha página impressa estava sendo seguida ipsis litteris. Paramos em frente a Catedral de São Pedro que conforme já tinha lido, ela está para Genebra como Notre Dame para Paris. Esta catedral começou a ser construída no século XI, durante a época romana, e acabada durante a época gótica. Não posso fazer qualquer comentário pessoal sobre ela porque, sob a alegação de que estávamos atrasados para o embarque no barco que nos levaria através do lago Léman (ou Genebra), não pudemos entrar na Catedral. Esta foi uma grande falha no meu tour .

No lago Léman vimos o famoso jato de água (jette d’eau) do qual os genebrinos têm grande orgulho. Não escapa o complexo de Itu, como o maior do mundo. O jato de água tem 140m. de altura, é alimentado pelo lago, consome 500 litros por segundo, e a velocidade do jato e de 200Km/h. A coluna de água é de 8 toneladas. É bonitinho, mas se você bobear, deixa de vê-lo, se sua vista já não for muito boa. Já vi vários espetáculos de águas dançantes, multi coloridas e estas sim me impressionaram. Talvez o orgulho de terem o maior jato d’água do mundo seja em virtude de sua altura, que realmente é imensa.

O que realmente me impressionou foi a quantidade de mansões construídas à beira do lago. Uma delas foi a residência do presidente dos Estados Unidos, Eisenhower, quando da conferência dos “Quatro Grandes, em Genebra, em 1955. Foi igualmente a residência de Ronald Reagan, em 1985, quando da conferência sobre o desarmamento, em Genebra, da qual também participou Michael Gorbatchev. É incrível como isto parece ter acontecido há tanto tempo, embora ali tivessem ocorridos fatos históricos há quase dois séculos, em prédios que ainda são mencionados. Refiro-me à imperatriz Sissi, a quem me referi no relato sobre Viena. Ela foi assassinada na calçada em frente ao hotel Beau Rivage sobre o qual encontrei as seguintes referências: “Para se hospedar em grande estilo fique no Hotel Beau Rivage ou no Hotel d’Angleterre, ambos de frente para o lago”, indicação que encontrei na Internet, quando buscava informações sobre Genebra. Há ainda mais: na margem do lago, a Casa branca, em frente da ONU, foi dada por Napoleão à imperatriz Josefina, em 1811. A casa veio posteriormente a pertencer a Cartier. Assim, de Napoleão, Josefina, Rotschild (dono de um castelo no local), Cartier, e vários,vários, outros nomes famosos, Genebra desfila seu passado e presente de high society. Um prato cheio para quem se importa com essas coisas. Só mais uma informação ainda quanto ao lago Léman: quando faz bom tempo, de lá podemos ver o maciço do Monte Branco que, afinal tem uma altitude pra lá de considerável:4807m.

Terminada a travessia do lago, volta ao hotel. A estação de trem era bem próxima e com facilidade o tomei . O problema surgiu na hora de descer. No outro havia os botões para abrir e fechar a porta, mas neste não encontrei, e portanto o pulo do gato que pensei já ter dominado não valeu. Tive mais uma vez que perguntar e um gentil rapazinho informou que alguns trens eram mais novos, outros mais antigos e daí a diferença. O que me trouxera era novinho em folha e este já era mais velhinho. Desci do trem mais velhinho e fui para o aeroporto para pegar a van que me levaria ao hotel. Nem vou contar a trapalhada que foi, eu e uma jovem senhora brasileira, que tinha ido assistir à formatura da filha em Montreux e também não achava ninguém para perguntar como se virar no labirinto do aeroporto. Minha cabeça naquela altura já se recusava a obedecer meus comandos. Estava exausta e não conseguia mais raciocinar. Mas, aos trancos e barrancos consegui chegar ao hotel. Jantei, pedi à recepcionista que me chamasse às 3.15 da madrugada porque precisava estar no aeroporto as 4.55 e também já marcasse um táxi porque naquele horário não funcionavam as vans do hotel. Ela anotou tudo direitinho e disse que me seria dado um package de café da manhã já que eu tinha prepaid. Em Viena também tinha sido assim.

O que diferiu terrivelmente foi o motorista que me conduziu. Na hora combinada adentrou o motorista no hotel, com cara mal humorada e que à minha pergunta: parlez vous d’anglais,monsieur? emitiu num urro: noooooooon. Como o taxímetro já estava marcando 14 francos aproximadamente, quando eu entrei, perguntei se ele já começava com 13. A resposta foi que começava com 6. Isto significa que ele encostou o táxi, levantou o taxímetro provavelmente quando chegou ao hotel, e só entrou no hotel exatamente na hora que eu tinha marcado. Quando chegamos ao aeroporto marcava não sei quantos francos e precisava saber quanto era em euros. Ele vociferou: são 15 porque temos que considerar as malas, apontando para a minha pouca bagagem, sem que eu tivesse dito qualquer coisa. Não deu para não pensar no meu motorista em Viena e sua bela educação, aparência, elegância, além da música clássica, que tinha sido o fundo musical no caminho para o aeroporto.

Embarcando no avião que me levaria de volta ao Brasil minha viagem terminou. Restaram estas lembranças, que, para mim, foram deliciosas, e uma felicidade imensa por ter ido novamente ao Velho Mundo, tão repleto de encanto e me trazendo tantas emoções. Ao mesmo tempo em que este relato ficará gravado em minha memória e também num CD, ao faze-lo me diverti muito, e mais isso deixo registrado neste meu “quase” relatório.