Fui primeiro para Zurich e, em conexão, tomei o avião que me levaria àquela ilha. Aí começaram as grandes andanças. Primeiro, andei, andei, andei, andei,……, puxando minha mala de rodinhas com a bagagem de mão em cima, pois não me adaptei ao carrinho deles, até chegar ao barco, que, navegando pelo Mediterrâneo, depois de 1hora e dez minutos nos deixou em terra firme. Na viagem constatei que embora as águas do Danúbio fossem verdes, as do Mediterrâneo, pelo menos no trajeto que fiz, eram azuis. Chegando a Veneza, depois de andar em cima de uma madeira estreita, entre o barco e o atracadouro, com minha mala de rodinhas, sem que ninguém tivesse ao menos se oferecido para me ajudar, recomecei a andar, andar, andar, andar………até conseguir localizar meu hotel. Achar o número de um prédio naquelas vielas não é tarefa fácil. Entre o local do desembarque e meu hotel passei na Praça São Marcos, onde estão a Basílica São Marcos e o Palácio Ducal. Antes já tinha passado defronte a várias barraquinhas que se assimilam a de nossos camelôs, mas que dão nota fiscal e constatei que eles odeiam quando a gente pechincha. Aliás, depois tive uma confirmação: lá eles têm os portos (carregadores) que se ofereciam para fazer o transporte da nossa bagagem até o hotel e se ofereciam por 15 euros. Quando chamei um, por ocasião de meu regresso, ele cobrou 20. Tentei que ficasse por quinze e ele disse, a seu modo, que se eu reclamasse ia pagar 30.

Chegando ao hotel, depois de muito perguntar, enquanto pegava meu voucher o recepcionista já falou: Mrs. Cypriano. Indaguei como ele sabia e sua resposta foi que era muito incomum ter uma senhora se hospedando sozinha. Recebi as chaves, subi ao meu quarto e depois de uma breve inspeção descubro que naquele hotel tinha chuveiro, não era como os outros, com banheira e chuveirinho. A cama também era arrumada como as nossas, com lençol de baixo, de cima e cobertor. No hotel anterior não havia o lençol de cima, só um edredom dentro de um lençol. Minha irmã já tinha comentado o apuro que passou num hotel em Paris onde não havia ar condicionado e nada de lençol de cima. A minha estratégia, onde só tinha o edredon, era tirá-lo de dentro do lençol e dormir dentro do mesmo. Minha irmã disse que não poderia fazer isso, pois ela e o marido não caberiam dentro do lençol. Acho que esta foi a única vantagem de estar viajando sozinha. Depois de feitas as inspeções, retirado alguma coisa da mala, desci para jantar. Ao comentar com o recepcionista que o que mais tinha gostado era do chuveiro uma senhora que estava ao lado deu uma gargalhada sonora. Entretanto era pura verdade. Naquele dia pude lavar a cabeça, tomar um banho demorado e por fim deitar porque sabia que o dia seguinte ia ser puxado.

O café da manhã era servido as 7.30 e há essa hora eu já estava lá, bem como muitos, muitos, americanos. Sentei-me em uma mesa, e como não houvesse outras desocupadas, um casal americano acompanhado da mãe do senhor, perguntou se poderiam partilhá-la. Sentaram-se e quando levantei, para me servir novamente de salada de frutas, o senhor falou que eu deveria gostar muito de frutas. Como tinha que falar alguma coisa respondi que era porque vinha de um país tropical. Perguntaram qual e quando disse que era do Brasil abriram um enorme sorrisão. Alias, este era o comportamento constante. Mais tarde comentei com um comissário de bordo da KLM e ele disse que os brasileiros são um povo muito simpático, alegre, comunicativo e por aí afora. Disse-lhe que antigamente tinha um pouco de vergonha por ser do “terceiro mundo”. Nesta hora estava me lembrando de uma excursão que fizera a Bath, na Inglaterra e não sei em que contexto o guia falou em leprosos e acrescentou que era uma doença que ainda não tinha sido erradicada no “terceiro mundo”, ao que parece para explicar o que era lepra, porque a turma, constituída só de europeus, não conhecia esta palavra, que ora apenas a nomeamos como hanseníase. Acrescentei ao comissário de bordo que provavelmente como agora estávamos com uma economia estável, no status de “país emergente” éramos mais bem recebidos. A resposta foi que embora nossa economia estivesse bem, ainda havia aqui muita miséria. Podia bem ter ido dormir sem essa, e só ficar na constatação de que o Brasil é visto lá fora e apreciado pelas características de seu povo. Voltando aos americanos, da minha mesa no café da manhã, engatilhamos uma conversa e naquela ocasião Obama ainda não era o candidato vencedor das prévias do partido democrático. A sra. mãe disse que tinha um pouco de receio pela pouca idade do candidato. O casal era disparadamente favorável a ele e não gostava de Bush. Disseram que a princípio acreditaram no que se dizia para fazer a invasão do Iraque, mas, que agora não acreditavam mais na sua legitimidade. Falamos sobre a atual economia dos Estados Unidos, e o sr. disse acreditar que aquilo fosse provisório. Engatei então: nessa ocasião espero que vocês comprem o nosso etanol. A resposta foi a que anda correndo para muitos. O americano disse-me que não gostava do etanol, pois, este estava sendo a causa da falta de alimentos e a conseqüente inflação mundial. Infelizmente a conversa terminou ali porque o grupo que excursionava estava deixando o restaurante. Acabei de me lembrar que falei que nosso presidente vinha da “working class” e a sra. falar, muito pensativamente, que talvez fosse bom se o mesmo ocorresse no país deles porque lá todos os presidentes tinham feito “law”.

Agora, vou voltar à Veneza, que quase me fez chorar, por instantes, de pura emoção. Antes disso, porém, preciso falar da Basílica de São Marco e do Palácio Ducal. Tanto um quanto outro são os pontos turísticos de maior acesso. Assim que me levantei fui à praça São Marcos para visitar ambos. Tive que reformular meu itinerário pois, por ser domingo, a visitação à Basílica é somente das l4 às 16 horas. Comecei então minha procura, através das vielinhas, da Ponte Rialto e do Grande Canal. Havia pouquíssimas indicações, mas de viela em viela acabei chegando lá, me acotovelando com um número imenso de turistas que, não sei como a cidade dá conta nas altas temporadas. Não tenho nada a comentar sobre os dois pontos, dado que, a meu ver, não têm nada especial. Valeu mesmo neste trajeto é entrar numa casa de internet( não era cyber porque não ofereciam café e nem lan house porque não havia crianças distraindo-se com seus games), abrir meus e-mails, para posteriormente dedicar-me ao esporte das compras. Até aquele dia não tinha tido quase tempo de comprar as lembrancinhas que rotineiramente a gente leva para distribuir a filhos, netos,etc. As lojas estavam lotadas e de certa forma surpreendeu-me estar todo o comércio aberto em pleno domingo. Ainda impressionada com a lembrança dos casais alemães e suas “pocket umbrellas” procurei comprar um daqueles guarda chuvas dobráveis, mas o único que encontrei tinha em todo seu tecido escrito VENEZIA, VENEZIA, VENEZIA,VENEZIA, não quatro vezes apenas, mas num verdadeiro carnaval. Não me senti disposta a enfrentar uma chuva no Brasil ostentando tanta VENEZIA. Afora esta pequena compra que não pode ser bem sucedida, encontrei tudo e para todos os gostos além das minhas expectativas. Incrível como não deixam de entregar o cupon da compra.

Depois de bater muita perna pelas lojas, Ponte Rialto e etc. fui para a fila à porta da Basílica. A fila já estava grande, dado que naquele dia o horário de visitação era de apenas duas horas, embora na véspera, quando cheguei, também havia fila. Esperando também o horário de entrada, havia um rapaz com o qual comecei a conversar, não sei por quê. Perguntei a ele sobre o Palácio Ducal, que ficava em frente, e quem era o doge. Pelas suas explicações deduzi que era um “king”. Ele retrucou que não era bem um “king’’ era um “seigneur” e assim deduzi tratar-se de uma figura da Idade Média, mais especificamente da Alta Idade Média. A fila em frente à Basílica começou a andar e fiz a visitação. Realmente ela é de grande beleza mas senti falta de um guia para ressaltar o que houvesse de mais belo. Acrescente-se ainda, que éramos praticamente empurrados para andar, face ao número enorme de visitantes. Saindo da Basílica fui visitar o Palácio Ducal, onde residia o doge. Desta vez senti ainda mais a falta de um guia. O palácio era imenso, um verdadeiro labirinto. Tinha recebido na entrada (ao custo de 5 euros, além da entrada, e ainda deixar o passaporte) uma espécie de controle remoto onde a gente pressionava os números que correspondiam ao local onde a gente se encontrava e era fornecida a explicação sobre o aposento onde nos encontrávamos. Naquele verdadeiro labirinto só umas poucas vezes o número que pressionei correspondia ao aposento. Uma vez tive sorte, pressionei o número correto e soube que estava na sala onde o Senado se reunia. A sala era imensa e fiquei muito surpresa ao saber que na Alta Idade Média, onde vigoravam os laços de vassalagem, havia um Senado. É bem verdade que, como assembléia política, já existia até entre os romanos A.C. mas jamais imaginei que ela pudesse estar presente na Alta Idade Média. Voltando para casa foi a primeira coisa que pesquisei. Veneza proclamava que seu governo era uma clássica república, tendo um conselho consultivo, uma espécie de ministério encarregado das questões de governo e um senado com 60 membros. Eis então porque a sala era de tão grande dimensão. Saí do Palácio lamentando bastante não ter tido um guia, como tivera, por exemplo, no palácio de Schönbrunn,em Viena, que tanto me encantou e despertou o interesse em melhor conhecer os Habsburgos.

Saindo do Palácio resolvi andar pela Praça e foi ali que quase chorei de emoção. A todo instante surgiam grupos cantantes, de vozes maravilhosas em um coro com uma harmonia impecável. Em frente a um café havia uma pequena orquestra tocando uma música que considero lindíssima, mas não conseguia lembrar-me seu nome. Só me vinha a cabeça o “I’ve got you under my skin”. Perguntei o nome da canção a uma senhora e ela disse que não sabia, mas colocou-me defronte da partitura da violinista e pude ver o nome da música que estava sendo executada: “Night and day”. É uma música do Cole Porter que tocava em todos os bailes, que eram muitos, em minha juventude. Não sei se a geração atual a conhece. Creio que a minha emoção foi motivada pelo cenário onde uma música me lançava aos tempos de juventude e por todas as vozes, reunidas em corais, que pela praça se faziam ouvir. Acho que o local para se ouvir tanta beleza tinha que ser Veneza com suas gôndolas.

Neste dia devo ter andado durante dez horas. Deixei de ir visitar outros pontos turísticos pois meus pés já estavam inchados e desisti de andar de gôndola pois um passeio ficava em 200 euros.

No dia seguinte recomecei minha maratona de caminhadas: do hotel até o barco e depois, do barco até o aeroporto, tendo ainda que enfrentar uma boa subida. Já comentei, logo no início, o meu “drama” para saber o local em que deveria fazer o check in e pegar meu “boarding pass”. Enquanto esperava, devo ter agido folclroricamente, mas estava realmente preocupada por não ter conseguido encaixar o feixe das alças que prendem as roupas dentro da mala. Assim, sem nem dar bola para a assistência, abri a mala e mostrei para uma senhora, através de mímica, pois ela não falava inglês, que as roupas estavam soltas dentro da mala. Ela cutucou o marido, mostrou o problema e ele fez o encaixe, depois de consertar o “defecto”,como ele disse. Livre de mais uma preocupação, segui eu para a fila de embarque do meu destino final.

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