Não tinha qualquer expectativa em especial e eis que me deparo com uma belíssima cidade, impressão que tive praticamente do trajeto aeroporto ao hotel. Este ficava localizado no 9º subdistrito. Toda Viena é dividida em subdistritos, a partir do centro, enumerado como o 1º. Nas placas das ruas, antes do nome está o número. Isto é bom para a gente se localizar, principalmente quando a gente está perdida, aliás, ao que parece, meu esporte favorito.

No trajeto aeroporto-hotel passei por prédios muito grandes, com belíssima arquitetura, diria até majestosos, nos remetendo aos tempos imperiais. O hotel que fiquei chamava-se Hotel- Palais e seguramente num passado remoto pode ter sido um palácio. Bem, lá chegando, depois das formalidades de praxe e desembaraço das bagagens fui à recepção solicitar que fizessem uma reserva para o dia seguinte em um tour pela cidade. Pedi ainda que me fosse fornecido um mapa da cidade e fossem destacados os lugares turísticos próximos para que onde pretendia ir na manhã do dia seguinte, andando a pé. De posse das informações retornei ao meu quarto, desfiz as malas (única vez na viagem e parcialmente), tomei banho e fui me deitar. No quesito banho, tenho que destacar a ausência de chuveiros, como os que estamos acostumados. Lá o costume é ter uma banheira imensa com chuveirinho. Em alguns lugares há uma forma meio precária de dependurar a ducha, na tentativa de transformá-la em chuveiro. Funciona mal a adaptação principalmente por causa das torneiras “inteligentes”. Em um hotel, não me lembro onde, a água saía pela torneira, diretamente para a banheira e ao mesmo tempo pelo chuveirinho. Não gosto de desperdício e, portanto, embora não fosse pagar por aquela água que escoava pelo ralo, incomodava-me o esbanjamento. Tentei com persistência que a água não saísse pela torneira da banheira, mas a “inteligência” das torneiras venceu-me. Que saudades tenho das simples torneiras q e f, indicando a temperatura da água que delas sairá. Depois da luta com as torneiras saí do banho e fui dormir. Coloquei o despertador para as 8 horas e em algum momento dormi.

No dia seguinte, logo ao despertar abri a cortina e vi que estava chovendo. Pensei, lá se vai o passeio a pé . Tomei café e voltei ao quarto onde joguei-me sobre a cama pois não estava me sentindo bem. Dois ou três dias antes de viajar tive um forte resfriado e por isto havia levado comprimidos anti-gripais e estes, depois de algumas horas deitada tiraram as dores que sentia pelo corpo. Já refeita, fui fazer o tour pela cidade no período da tarde. Uma van passava nos hotéis e pegava os turistas para os diversos tours. Embarcados nos ônibus iniciava-se o roteiro: À esquerda vemos… à direita vemos…em mais de uma língua. Escolhia sempre o espanhol que é de mais fácil compreensão nestas ocasiões e lá fui eu tendo a visão panorâmica do Parlamento, Catedral de Santo Estevão, Jardins do Palácio de Belvedere, que recebeu esta denominação, por proporcionar um bela vista (bel vedere) .Não houve oportunidade para perguntar porque a utilização de uma língua latina. Vimos também o Teatro da Ópera e visitamos o Palácio de Schönbrunn. Este foi um espetáculo a parte. É muito parecido com o palácio de Versailles, começando pelos imensos jardins. A visita ao seu interior impregnava-se de História e voltei determinada a estudar sobre os Habsburgos. Foi lá que fiquei sabendo que Sissi, imperatriz da Áustria, levada às telas nos filmes Sissi I, II e III, que tanto encantaram as platéias dos cinemas em minha época, tinha sido assassinada. Quando voltei perguntei ao meu marido se sabia deste fato e ele disse que não. Minha irmã que também visitou o palácio Schönbrunn, também desconhecia o fato e gostaria muito de poder rever ao menos um filme e recordar a romântica história da imperatriz. São estes flash back que por vezes tornam algo numa viagem tão inesquecíveis .

As companhias que nos levam a estes tours nos apanham nos hotéis mas depois nos deixam em qualquer lugar. Como estava no centro pedi que me deixassem em frente à Ópera, pois, sabia que ela era próxima de uma rua chamada Ringstrasse (em Amsterdã, as ruas eram straat, em Viena strasse,e temos street em inglês). Adoro saber a etimologia das palavras. Bem, voltemos a Ringstrasse. Tinha levantado na internet que lá estava localizado o mais moderno shopping center, que, aliás, chama-se Ringstraassegalerie. Nesta rua havia vários cafés e restaurantes e aproveitei para jantar num restaurante italiano. O dono não falava inglês e tive que me virar num italiano que confundia Grazie com Gracias. Havia vários restaurantes italianos e me pergunto o porquê, uma vez que buscando no Google: “Ringstrasse” há indicação de vários sites em italiano. A ida a aquela rua foi ótima sob vários aspectos: estive em frente à Ópera a pé, podendo ter melhor visão da imponência do edifício, tive um maior contato com a zona central (zona 1) que, se não estiver errada é tombada como patrimônio histórico da humanidade; conheci o tal shopping center, fiquei a par dos preços de um cabeleireiro, do qual já estava sentindo falta, caminhei pelo centro histórico e para voltar ao hotel mais uma vez me vali do “quem tem boca vai à Roma”. Perguntei a duas mocinhas se poderia ir à pé do 1º ao 9º subdistrito. Elas acharam que ia ser muito longe e me apontaram um ônibus que poderia pegar, mas, em seguida começaram a falar entre elas e então perguntei: “what about a taxi?”. Elas concordaram na hora e disseram que não ia ficar muito caro, por volta de dez euros. Havia um ponto de táxi logo ali perto e o primeiro que peguei tinha um G.P.S. e num instantinho cheguei ao meu Hotel Palais….

A única vez que vi um ponto de táxi na minha viagem foi esta. Acostumada com a fartura de táxis aqui em São Paulo, isto também me surpreendeu. Agora, volto à Ópera. Vim a saber, mais tarde, que havia também uma programação que incluía uma ida à Opera, para assistir um concerto sinfônico e depois uma ceia. Imagine, assistir um concerto sinfônico em Viena –Wien- Stadt der Musik- (Viena- cidade da Música, o título de um CD de música clássica que adquiri lá), deve ser o supra sumo da emoção. Mas, como sempre viajo sozinha, não costumo sair à noite e, portanto, não tinha levado roupa para poder ir à um concerto sinfônico. Assim foi, como, mutatis mutandi ter ido à Buenos Aires e não ter assistido a um show de tango. Mais uma vez tive que repetir: não adianta chorar em cima do leite derramado.

Voltando ao meu “Hotel Palais” pedi à recepcionista que fizesse, para o dia seguinte, uma reserva para um passeio de barco pelo Danúbio. Em seguida fui dormir, com o firme propósito de no dia seguinte, pela manhã, fazer os passeios a pé que não fizera, no dia anterior, por estar chovendo.

No dia seguinte, ao acordar, abro as cortinas e o que vejo? Chuva. Mais uma vez tomo o café e volto a deitar, como se estivesse adivinhando que teria de poupar minhas forças para a próxima cidade: Veneza. Às 14 horas desci, tomei a van que me levaria até o ônibus de turismo de onde seguiria para o tour pelo Danúbio. A caminho do local para pegar o barco passamos por um charmoso vilarerejo de vinicultores, com inúmeras tabernas, típicas ,chamada Grinzing. As tabernas no charmoso local são um “point”, e lá se misturam nativos e turistas. Não longe dali estavam os bosques de Viena.

Chegamos ao local dos barcos para fazer o tour pelo Danúbio. O que me chamou a atenção em especial foi a cor das águas. Pelo menos naquele trecho, o Danúbio não era azul e sim verde. Havia uma espécie de “serviço de bordo” (evidentemente cobrado a parte) e pude fazer meu almoço-jantar. No meio do passeio começou a chover. Não sei se é coincidência ou em Viena, pelo menos nesta época, chove bastante. O final da Euro Copa neste ano em que a Espanha se sagrou campeã, realizado em fins de junho, foi debaixo de chuva. Quando chegamos ao nosso destino final, debaixo de forte chuva, um número de enorme de sras., alemãs, ao que pareciam e falavam, sacaram das bolsas os seus guarda-chuvas. Até mesmo os maridos também tinham os seus “pocket umbrellas”. Acabei de criar um neologismo, tão impressionada fiquei com todos aqueles guarda chuvas sendo providencialmente sacados. Bem, na rua a guia sugeriu-me que pegasse um táxi e eu, já descolada, vi que estávamos no 2º subdistrito e portanto a corrida ficaria em 9 euros. Falando em guia, lembrei-me de comentar que o número de alemães viajando devia ser bastante grande pois, primeiro os guias falavam em alemão, depois em inglês e por último em espanhol. O interessante é que parece que falavam bastante na primeira língua, um pouco menos na segunda e menos ainda na terceira. Deve ser complexo meu, de “país emergente”.

Cheguei ao hotel, ainda debaixo de chuva, e pedi à recepcionista que agendasse um táxi para mim, para o dia seguinte às 7 horas da manhã, devendo ser da mesma companhia que me levara ao hotel e que oferecia um desconto de 10% se voltássemos a chamá-los. Qual o meu espanto quando ao sair do elevador com minhas malas, pontualmente às 7 horas, um moço lindo, lindo (o motorista do táxi), com altura mínima de 1.90, num terno impecável, adentra o hotel, pega minhas malas, coloca no porta-malas, enquanto eu faço o check-out. Entrei no possante do rapaz e ele me perguntou que tipo de música eu gostaria de ouvir. Perguntou se clássica estava O.K. ,eu respondi que sim e lá fomos nós para o aeroporto ao som de música clássica. E assim, em grande estilo, deixei a majestosa Viena.

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