A noite está tão fria , CHOVE lá fora

 

       É assim que começa a letra de uma música cantada pela Nora Ney. Já sei que você nunca tinha ouvido este nome, mas, acredite, ela é até verbete de enciclopédia. É de algumas décadas atrás, quando eu tinha meus 15 anos. É música de fossa, como, aliás, quase todas dela, e talvez fosse o estilo daquela época. Com relação a música minhas recordações são poucas, e talvez por isto, não saiba das tendências do período. Também, dá para explicar. Naquela ocasião meu pai dizia que só podíamos ouvir música clássica em casa. Pai mandava e filho obedecia. Acabei de lembrar-me de um trechinho de outra: “não tem solução, um amor a mais, me tirou a paz não sei o que faço com este amor a mais…….” Esta acabou de surgir-me a memória, creio que por falar algo sobre meus 15 anos. Ela me foi cantarolada, muito baixinho, por um menino, na festa em casa para comemorar meu aniversário. Foi muito romântico na ocasião. Será que a palavra “romântico” ainda está em uso?

       Embora um comentário puxe outro estou aqui para escrever sobre :

CHUVA

 

       Parece que ela sempre evoca melancolia,  mas, analisando um pouco melhor, a chuva é vista, ora como a encarnação do Bem, ora do Mal. Para quem leva vida severina, com morte matada ou morrida, como diz João Cabral de Melo Neto, ela é via de regra, um grande Bem. É a única esperança de não ter morte morrida, pela seca que produz a fome, junto com as cabeças do escasso gado espalhadas, com todo o esqueleto à mostra, pelo sertão queimado com o  sol inclemente.

 

 

       Para nós, da zona urbana, ela é difícil de agradar a gregos e troianos simultaneamente. Quando não chove há muito tempo há os males decorrentes do tempo seco, lotando hospitais procurados pelos inúmeros casos de problemas respiratórios, causados pelo tempo seco, há a poluição do  ambiente, há a advertência de que não se prátique exercícios físicos em horários em que a umidade do ar fica muito baixa e seqüelas outras, especialmente para crianças e idosos, além do aumento nos gastos com remédios que a TV anuncia, em suma, é avaliada como um Mal. Ela é Bem para os donos de farmácia que faturam um troquinho a mais.

      

 Quando finalmente surge a chuva ela é saudada como o grande Bem. Ledo engano. Logo ao sair de casa, aquele que evocava o grande Bem, como salvador da pátria, se motorizado, irrita-se com os congestionamentos que aquele grande Bem provoca. Os compromissos são desmarcados porque os carros, andando em primeira e segunda, levam mais de hora num trajeto que deveria levar minutos, alguns trens ou metrôs entram em pane, os ônibus demoram o dobro do tempo para fazer o mesmo percurso do tempo do Mal e o resultado é que os não motorizados chegam atrasados em seus compromissos. Geralmente levam broncas ou algum prejuízo no bolso face ao descumprimento do horário. Algumas batidas de carro são inevitáveis, pois a pista molhada impede alguns incautos de frear. As seguradoras vêm a água que São Pedro despeja lá do céu, uma fonte de prejuízo, dado que vão ter que arcar com o conserto de carros batidos. Bem para as funilarias e os martelinhos de ouro. Mal para a periferia, porque é justamente onde estão os mais desprovidos de recursos que as inundações são mais freqüentes.

 

        É nessa hora que a mídia vê o Bem: há muito assunto para noticiar, muito a ser filmado muitos depoimentos a serem colhidos, e rapidinho a pauta do dia está completa. Mal para repórteres que munidos de capas brancas ou amarelas levam ao ar as tragédias. Bem para quem tem preguiça de regar as plantas. Mal para quem anda pelas ruas, munida de guarda chuva e encharcando o pé de água. Bem para os que sofrem com problemas respiratórios, e com ansiedade aguardavam o fim da poluição.

 

        um outro grupo para quem a chuva é  tanto o Bem quanto o Mal: estão incluídos nesta categoria especial os marronzinhos, os carteiros, além de outros que agora não me lembro de mencionar. Para os “marronzinhos” quando não chove ela é o grande Mal, pois ficam sujeitos à grande poluição que, aliada a fumaça preta dos caminhões, ônibus e carros com motor desregulados torna a saúde debilitada e a vida parecendo ser um fardo quase insuportável. Quando chove dá-se a encarnação de um Mal que não sabem se é melhor ou pior: ficam debaixo do aguaceiro tentando fazer o trânsito fluir, no caos que se forma, quase engolidos pelo mal humor dos estressados motoristas. Se pudessem voltar atrás fariam o que mamãe dizia: meu filho, estude para ter uma vida melhor. A propósito, seguir os conselhos de mamãe até  Dorival Caymi já deixou registrada na sua música: Saudade da Bahia. Bem, não ouviu o que mamãe dizia, dançou e Caymi cantou.

 

       Não podemos esquecer os carteiros para quem, como os “marronzinhos” a chuva é a encarnação  tanto  do Bem quanto  do Mal. Se parar o bicho come, se correr o bicho pega. Este é o próprio exemplo de ausência de luz no fim do túnel.

 

       Como vimos, não há como cobrir todos os aspectos sobre o Bem e o Mal  que a CHUVA provoca.

 

       Em outra crônica, vou ver se acho um tema que seja unanimidade, mas acho que vai ser difícil, pois nem a Copa do mundo tem. Conheço  brasileiro que torce contra a seleção. Talvez haja unanimidade, segundo dizem, na admiração dos brasileiros quanto a uma parte da anatomia feminina que dizem ser a preferência do brasileiro. Mas isto é uma outra história que fica para outra vez, ainda mais que dizem que há controvérsias.

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