Descartáveis e Recicláveis

 

 

       Desde o finzinho do século XX e principalmente agora no século XXI, ela se pergunta: devo usar copo descartável ou um copo de vidro? Se optar pela segunda alternativa ela vai gastar água e talvez não seja o ecologicamente correto, e isto a preocupa muito, bem como a milhões e milhões habitantes deste planeta.

 

       O copo descartável, segundo suas informações, é feito de plástico que a natureza leva um colosso de anos para desintegrar, e a água potável corre o sério risco de desaparecer. Vai ser difícil saber qual a decisão a tomar.

      

       Não há como não se preocupar, pois contaram a ela que a terra já foi dizimada uma vez, quando Deus, para castigar os homens, despejou chuva sobre ela durante 40 dias e 40 noites e, dentro de uma arca, se salvou Noé e sua família, que tiveram como companhia um bando de casais de animais e um passarinho em especial, que, solto, quando Noé achou que já era hora, voltou à Arca, com um raminho bem verdinho, preso no bico. Isto significava que as coisas na terra já estavam fecundando. Bom, desta vez o planeta não foi para o espaço e tudo recomeçou como dantes no quartel de Abrantes.

 

 

       Agora parece que não é Deus quem vai dizimar o planeta, utilizando água, e sim o próprio homem, segundo trombeteiam os arautos da Apocalipse. A ciência não explica bem assim, mas, é mais fácil entender a versão dos primeiros. Dizem eles que se tudo continuar como está a terra vai tornar-se tão aquecida que pode vir a explodir numa imensa bola de fogo, por ter destruído a camada de ozônio, pela emissão de poluentes, pela destruição das florestas, e fatores outros que provocarão o aquecimento global e daí bye, bye e tchau. Lá se vai a bola de fogo. Apocalipse total.

 

 

       Ela que é muito bem informada, acha que tem que dar sua parcela de auxílio para que isto não aconteça. Não é por ela que teme, pois já está velha, mas tem netos e talvez terá bisnetos e tartaranetos e sabe-se lá quantos outros derivados de netos e não quer que seus descendentes tenham suas cinzas remessadas ao espaço, na tal bola de fogo.

 

 

       Uma coisa está sempre presente em seus pensamentos, enquanto tricota algumas peças de enxovalzinho para o próximo netinho que vai nascer: felizmente seus pais não tiveram sua parcela de culpa na hecatombe. Ela se lembra que quando pequena ainda não havia plástico. Seu pai tinha uma fábrica de brinquedos mas eles eram todos de pelúcia, até as bolas, e as bonecas eram de louça. Quando durante a 2ª guerra mundial não havia petróleo no mercado, andavam num carro, movido a gasogênio. E, nessa época, não consumiam energia à noite. Diziam que era preciso ficar em blecaute e para isso as janelas tinham uma cortina preta que ficava cerrada à noite, pois era melhor não dar sopa pro azar e ser atingido em algum ataque aéreo, mas assim também economizavam energia.

 

       Eles deviam ser realmente muito conscientes pois não tinham geladeira, grande vilã, pois parece que no mecanismo de refrigeração, um gás é expelido e tchbum, lá vai ele para a camada de ozônio. Poucos, naquela época eram tão conscientes, pois a maioria dos vizinhos já tinha, bem como tinham fogão a gás enquanto o da casa dela era a carvão. Será que os pais dela eram muito pobres e não podiam comprar o que seus vizinhos tinham? Sei não, pensava com seus botões. Era sócia de um clube e tinha aulas de natação aos cinco anos de idade. Seu irmão tinha uma “pajem”, que hoje chamam de babá. Sua mãe, uma vez, tinha mandado fazer uma fantasia para ela que era uma beleza, para o desfile de carnaval no clube em que eram sócios. A fantasia era de marechala, feito em veludo, enfeitado com dragonas douradas, quepe todo estiloso que ela mandou confeccionar.  Na rua era a menina que tinha os vestidos mais bonitos. Quem é pobre será que pode tudo isto? Como ela iria entender a ausência de geladeira e de fogão a gás? Este é um dilema para não botar defeito no daquele célebre poeta que, aprende-se na escola, nasceu  em Stratford on Avon, na segunda metade do século XVI.

 

 

       A geladeira às vezes fazia falta. Naquela época estava surgindo a penicilina, mas o medicamento precisava ser conservado sob refrigeração e  então o único recurso era guardar na geladeira de alguma vizinha, provavelmente com menor consciência ecológica. Apareceram as primeiras máquinas de lavar roupa e como ela gastava menos água do que se fosse lavada à mão, a mãe dela rapidinho comprou uma. As vizinhas, com geladeira, não tinham, mas ela tinha a sua importada que fazia sucesso, pois lavava até cobertor, e mais uma vez demonstrava ser ecologicamente correta.

 

 

       Mas consciência ecológica não está resumida apenas a plástico, geladeira e desperdício de água. Também tudo que é gasto de forma inútil, aumentando a produção de lixo, também poluente do meio ambiente.  Como mesmo naquela época já havia algumas pessoas ecologicamente corretas, por vezes, as senhoras, quando reunidas, como se estivessem numa disputa, desfiavam as suas proezas em matéria de fazer economia, para não haver desperdício.    Certo dia, com muito orgulho, sua mãe disse que quando usava o fogão gastava só um palito de fósforo, porque sempre aproveitava o mesmo, utilizando a chama acesa em outra boca já em uso. Isto realmente é saber fazer economia. Acho que desta vez ela até ganhou o campeonato.

 

 

       Daí a César o que é de César. Ela, num ponto, sempre deu a sua contribuição para atenuar os efeitos da poluição. Gostava muita de plantar árvores. Plantava na calçada, e na primavera, em frente a sua casa, as flores se abriam num esplendor de cores. Nos jardins também havia árvores que proporcionavam beleza para os olhos, e ela fazia isto com tanto amor que seu rosto resplandecia nessas ocasiões e é assim que ela se lembra da sua mãe enquanto tricota o casaquinho para aquele que seria mais um bisneto para a plantadora de árvores, que a seu modo, em pequenos espaços, tornou o mundo mais bonito.

 

 

           

  

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