O tempo passou e muita coisa mudou

 

       Esta é uma foto da Avenida São João em 1952. Resolvi escrever sobre aqueles tempos, pois, às vezes cito em minhas crônicas locais como Rua do Arouche, Praça da República, Praça João Mendes e tenho certeza que muitos não fazem à mínima idéia de onde sejam estes lugares. Também não entendem como a maioria da população, de todas as classes sociais, andava de ônibus, além de outras referências que faço a um passado de aproximadamente cinco décadas atrás.

 

       Pela foto vêem-se tão poucos carros que é até possível contá-los. O meio de transporte dominante é o bonde, e estes fechados eram chamados “camarões”. Os ônibus seguiam o padrão comum.

       Há um homem atravessando a rua e ele está vestido com um terno. Naquela época os homens só se vestiam assim e se algum estivesse sem o terno tradicional e com gravata, era impedido de entrar no cinema.

       Felizmente na época da foto acima, os homens já não precisavam andar de chapéu, o que já era um avanço, porque me lembro do meu pai, quando pequena, sempre de chapéu. Aliás, os homens tinham seus códigos de bom tom, e era considerado um “desrespeito” sentar-se à mesa sem estar de paletó.

 

        Mulheres usando calça comprida, nem pensar.Falando do assunto, lembro-me de um dia em que fui tratar de uma pendência, na Caixa Econômica do centro. Naquela época, isto foi próximo de 1970, as mulheres já saíam à rua de calça comprida, especialmente em dias frios. Como fazia muito frio no dia em que fui à Caixa, estava com aquela indumentária. Ocorre que precisei ir ao Fórum para acertar uma papelada, sem a qual não podia resolver os trâmites burocráticos que estavam pendentes. Cheguei ao Fórum quando os funcionários estavam entrando e por isso pensei que passaria despercebida. Naquela época as mulheres não podiam entrar naquele recinto usando calças compridas. Assim que senti as mãos de um guarda nos meus ombros, puxei uma funcionária que estava com um casaco comprido, pois já sabia o que o guarda queria comigo. Do lado de fora pedi o casaco da funcionária emprestado, enrolei minhas calças compridas e assim consegui entrar. Ela me acompanhou por todos os lugares onde fui, pois, disse que não poderia ser vista circulando sem o seu casaco, que ocultava o meu grave “delito”.

 

 

       Rememorando este fato lembro-me do frio que sentia no ponto de ônibus, com as pernas apenas cobertas com meias de náilon, quando saía do escritório de advocacia que trabalhava. Além deste frio, lembro-me também dos meus tempos escolares, quando de saia de uniforme, sentada numa carteira na frente da classe, uma janela aberta, deixava minhas pernas arrepiadas de tanto frio. Geralmente eu me levantava e fechava a janela. Minhas colegas que se sentavam no fundo reclamavam e eu mandava que elas abrissem à janela perto delas. Não poucas vezes ocorreram discussões acaloradas no meio da aula. Não consigo me lembrar quem ganhava a parada, mas, do frio, eu não vou esquecer nunca.

 

       Acho que o uso de calças compridas pelas mulheres foi uma conquista e tanto.

       Não quero enveredar por considerações sociológicas, mudanças de comportamento ou conquistas femininas, mas, registrar o frio que passava, pois, mulher não poder usar calça comprida, é algo que não dá para esquecer.  Não consigo esquecer os ventos gelados e eu exposta a eles, tremendo, e sem poder fazer nada.

       Agora, alguns homens resistiram a essa mudança e o meu sogro foi um deles. Nunca deixou minha sogra usar calças compridas, pois, não as achava elegantes numa mulher. Disse que não iria enveredar por análises sociológicas, mas, falar do machismo daquela época não pode ser deixado de lado.

       Ele era tão grande que até nós mulheres embarcávamos na deles. Eu ouvi mulheres advogando a superioridade intelectual do homem. Eles conseguiam que nós acreditássemos nisto. A mulher não podia trabalhar fora porque o papel do homem era ser o provedor da casa e se sua esposa trabalhasse, estaria atestando que ele não tinha capacidade para tal. Lembro-me de uma colega contando que precisara viajar ao Rio a trabalho e ouviu do seu namorado:”eta mulher macho”!! Essa não pode exercer a advocacia depois que se casou. Era tão comum ouvir de moça falando que o namorado não a deixava usar um vestido com decote, ou estabelecendo que comprimento devesse ter a barra da saia. Meu namorado, ou, meu marido não deixa, eram frases que estavam na ponta da

língua de qualquer mulher.

 

 

 

 

A foto acima é de uma mulher elegantemente trajada. Entretanto, as saias rodadas, a cinturinha de pilão e as luvinhas estavam presentes em qualquer ocasião. O corpinho tinha que ser um,

 

 

 

 

que os britânicos chamam de ampulheta. Nada de corpos retos. Não se falava em anorexia antigamente.

       Voltando ao traje da foto, normalmente se ia vestida, naquela elegância, com chapéu, em ocasiões como uma avant-première, como se chamavam as pré-exibições de hoje.

         Quando estava falando da Avenida São João esqueci de falar que os cinemas eram por lá. Na época não havia shopping centers e os grandes cinemas ficavam no centro, mas, as mocinhas podiam ir, mesmo à noite, despreocupadamente. Hoje, mesmo durante o dia, não há muita segurança, à noite, então, nem pensar.  No centro antigo ainda resiste bravamente o bar Brahma, que deve ser freqüentado por nostálgicos que vão ouvir Cauby Peixoto, que se apresenta por lá não sei que dia da semana. Aliás, tenho grandes saudades desse bar. Freqüentei muito quando era moça e dele guardo muito boas recordações

 

              

       Outra ocasião para se por em grande gala era a ida ao teatro. Até mesmo para ir à missa, vestia-se com apuro. O chapéu, pelo menos na minha época, tirando alguns eventos especiais, como o que citei acima, era mais reservado para casamentos. Não era como hoje em dia, em que se alugam os chapéus. Minha irmã, 11 anos mais nova que eu, se lembra muito nitidamente dos meus chapéus. Havia os pequenos e os de aba larga que ficavam guardados em casa, condicionados em caixas especiais. Minha mãe pegou o tempo em que as mulheres saiam à rua de chapeuzinho. Eu, para sair à rua só peguei a época que se usavam boinas. Estas eram de cores e tecidos diversos e elegantemente presas à cabeça. Acabei de lembrar-me que quando tinha 15 anos fui a um chá no Mappin, loja de departamentos muito famosa à época, que num elegante salão, tinha o chá da tarde. Neste dia também fui de chapeuzinho. Dando um balanço agora, creio que os chapéus eram reservados para os casamentos ou ocasiões muito especiais, como falei das avant premières, sem esquecer dos grandes prêmios no Jockei Clube.

       Quase ia me esquecendo de outra ocasião em que se usava chapéu. Casei-me em 1963, mas até aquela data, ainda resistia bravamente à tradição, recém-casadas, partirem para a lua de mel, devidamente paramentadas com um chapeuzinho. A única coisa que diferia é que os chapéus eram alugados, passara o tempo de ter chapéus em casa.

      

       As luvas são um capítulo à parte. Andávamos de ônibus, mas sempre enluvadas. Recordo-me de estar grávida, creio que de quatro meses e, portanto, não muito visível, ter passado na rua por um antigo namorado, e ficado aflita, pois, como estava de luvas ele não podia ver minha aliança e poderia pensar que eu estava grávida solteira. Isto naquela época era o horror dos horrores. Tinha pai que punha filha para fora de casa, o Código Civil, admitia que a filha grávida, solteira, pudesse ser deserdada, por “desonestidade da filha que vive na casa paterna”, e por aí afora.

 

       Falando em Código Civil, a condição da mulher mudou, creio mais que tudo, tanto se falando em mudanças de locais, ou sociais, comportamentais ou qualquer outra mudança que o passar do tempo tenha operado.

 

       Em 1995 terminei a graduação em História. Pretendia fazer mestrado e tinha como projeto estudar, à luz da legislação, a condição da mulher no Brasil-colônia. Estudei amplamente a legislação daquele período e me julguei pronta para seguir em frente com o meu projeto. Acontece que entre as aquisições de livros para minha pesquisa encontrei um livro raro de Direito da Família de um dos autores do Código Civil, o jurista “papa” do Direito: Clóvis Bevilacqua. Adquiri o livro para fazer um confronto entre essa legislação e a que regia o Brasil quando era colônia. Qual não foi a minha surpresa quando vi que muitos dispositivos legais aplicados à mulher quando o país era dependente do reino português, se assemelhavam bastante aos do Código Civil brasileiro do século XX. Desisti do meu projeto.

 

       Fiz esta pequena digressão apenas para dar continuidade ao que falava sobre as mudanças, no caso especificamente da legislação, operadas sobre a mulher. Imagine que quando fiz meu curso de Direito a mulher saía diretamente do domínio do pai para passar a ser tutelada pelo marido. Ela era considerada relativamente incapaz, ou seja, eram anuláveis os atos por ela praticados, da mesma forma que o eram os praticados por menores de vinte e um anos, os pródigos e os silvícolas. A lei se referia a “mulheres casadas, enquanto subsistir a sociedade conjugal”. Era o casamento que tornava a mulher relativamente incapaz e isto por sua posição na sociedade conjugal, pois, como era uma sociedade, exigia um chefe, e esse era o marido. Ora, se a lei dava este tratamento às mulheres, não é a toa que as mulheres vivessem repetindo “meu marido não deixa”, e, como disse acima, elas próprias advogavam a superioridade masculina, até mesmo a intelectual. Realmente o tempo passou e muita, muita coisa mudou.

 

 

       Falei muito sobre a mulher, nas mudanças que se operaram, mas, foram tantos os progressos nestes últimos cinqüenta anos que isto seria tema para um livro de vários tomos. O meu intento, porém é falar, superficialmente, sobre como o tempo passou e algumas mudanças que trouxe.

 

       Não posso deixar de destacar algumas das mudanças que o novo Código Civil, de 2002, trouxe para a mulher. Começo pelo absurdo da “virgindade”. Pelo Código anterior, em pleno século XX, o homem poderia pedir a anulação do casamento se descobrisse que a mulher não era mais virgem. Hoje a questão da virgindade nem é mais tratada.

 

       Antes o homem exercia o “pátrio poder” hoje nem existe mais. Fala-se em “poder familiar” que é exercido igualmente pela mãe e pelo pai. Lembram-se de quando falei que o homem era o “provedor” da família e até por isso impedia que a mulher fosse trabalhar? Pois é, isso também acabou e a obrigação de sustento da família é exercido igualmente pela mãe e pelo pai.

 

       Falei também do horror que era ser mãe solteira. Agora, essa mãe e o filho são considerados um família.

 

       Havia também o problema da guarda dos filhos. A mulher era, via de regra, considerada a mais capaz. Hoje são vários os critérios a serem analisados para definir quem será o melhor guardião. Há ainda a possibilidade da guarda ser compartilhada.

 

       Só há um ponto que não sei se as mulheres levaram a melhor: elas também podem ser condenadas a pagar pensão ao marido.

 

       Além das mudanças significativas que se operaram na legislação, no que tange a mulher, outra alteração visível, que em São Paulo está quase gerando o caos, é a presença dos carros nas ruas.

 

 

       Por diversas vezes mencionei o fato de como eram poucos os carros e, em conseqüência como poucos o tinham. Tudo começou mais ou menos assim:

O Fusca

 

      

 

 

 

       Até o governo Juscelino Kubitscheck não tínhamos no Brasil uma indústria automobilística. Foi durante este governo, de l956 a 1961 que o Brasil se transformou de país agrário para uma sociedade urbana. O grande presidente dizia que sua meta era 50 anos em 5. Ele quase tornou real a sua meta. O Brasil realmente deu um salto qualitativamente imenso. Foi durante seu governo que se construiu Brasília, que houve a ampliação do setor industrial, e principalmente, houve a implantação de uma indústria automobilística. Foi a partir dessa data que os carros, agora fabricados no Brasil, tiveram seu uso difundido.

       O Fusca foi um símbolo da introdução do automóvel em nosso cotidiano. Creio que praticamente todos os brasileiros com mais de 50 anos tenham aprendido a dirigir no “besouro “ da Volkswagem. Era com muito orgulho que alguém dizia ter um Fusca “0”.

 

       Posteriormente, aproximadamente 10 anos depois, surgiram alguns carros grandes e possantes como o Galaxy, se minha memória não estiver me pregando alguma peça, mas o predomínio do Fusca, que desfrutava de tanta popularidade por sua eficiência, economia e robustez produziu seus filhotes: a Variant, o Karmanghia, o Brasília e o Gol. Pelo menos do Gol deve haver muitos que ainda se lembrem dele.

 

       Juscelino implantou a indústria automobilística e ela se firmou a ponto de algumas cidades terem um carro para cada duas pessoas. A imagem daquela Avenida São João com um número de carros que dá para se contar parece até ficção científica (no sentido inverso).

 

       Rememorar tanta coisa não me traz nostalgia nenhuma. Pelo contrário, sinto ter tido uma vida muito rica por ter vivido e assistido tantas transformações.

 

       Vou começar mencionando os presidentes. Foram da minha época os dois maiores presidentes do Brasil: Getúlio Vargas e Juscelino Kubtischek, de quem já falei. Getúlio Vargas, infelizmente, se manteve no poder por longos anos, instalando um governo ditatorial. A despeito disso fez parte ativa do progresso para que um Brasil essencialmente agrário, desse seus primeiros passos rumo à industrialização. Mais do que os incipientes passos dados foi a sua política nacionalista, que investiu muito na área de infra estrutura. Criou a Cia. Siderúrgica Nacional, a Vale do Rio Doce e em seu segundo governo, agora eleito democraticamente, criou a campanha “O Petróleo é Nosso”, que resultou na criação da Petrobrás.

 

       Vargas, em sua época foi chamado de “pai dos pobres”  pelas mudanças que se operaram nas relações entre empregados e empregadores, com a CLT. É bem verdade que hoje ela está superada e até contribui negativamente para a competitividade dos nossos produtos, mas àquela época as relações entre trabalhadores e patrões por vezes chegavam a ser desumanas. Seu nome, é muito associado a radical mudança que se operou nas relações de trabalho, mas é de máxima importância que seja ressaltada sua política responsável pela implantação da infra-estrutura que  levou à criação de  companhias do porte das acima citadas.

 

       Não é apenas por ter vivido quando estes dois presidentes estiveram à frente do país que tornou minha vida mais rica. Foi a constatação, ao escrever este texto, que assisti a tantas mudanças e as incorporei de forma tão natural que até parece que nem o tempo passou e nem o mundo mudou.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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