Minha tia Laura

 

 

       Minha nora, depois de ler a crônica sobre o meu sítio encantado, disse que embora não o tivesse conhecido, ela também tinha tido o seu sítio mágico . A partir daí comecei a pensar no assunto e vi que muitas outras pessoas, talvez também tivessem tido um sítio que pudessem chamar de encantado.

 

       Tinha vontade de escrever sobre minha tia Laura, mas, relutava, porque parecia ser uma recordação só minha. Assim sendo, deveria ficar encerrada no meu baú de lembranças. Entretanto, depois do comentário de minha nora vi que podia tranquilamente escrever sobre a minha tia, porque talvez muitos também tivessem sua tia Laura.

 

       A foto é de quando ela era muito moça, tinha vinte anos, não a conheci assim, mas não pude resistir quando tive que escolher entre essa foto e a da tia que conheci. Provavelmente meus filhos e meus netos também farão da mesma forma, quando tiverem que escolher uma foto minha. É duro envelhecer, eu não escapei da ação do tempo, bem como minha tia Laura também não pode fazê-lo.

 

       Minhas recordações de minha tia começam aos cinco, seis anos, freqüentando sua casa. Ela não era como minha tia de meigos olhos azuis, do sítio encantado. Era uma personalidade forte, grande batalhadora, que trabalho nenhum parecia extenuá-la. Ela e meu tio tinham uma papelaria, que também vendia, entre outras coisas diversas, tecido pintado para bordar, e nas datas comemorativas como Natal, Páscoa, e outras, cartões alusivos à data, artesanalmente decorados.

 

       As minhas primeiras recordações são de, passando alguns dias na casa dela, sairmos, depois do almoço, para comprar renda, que ela colocava como barrado nos tecidos que iriam ser bordados, e vidrilhos, miçangas, pó de purpurina e não sei mais o que para decorar os cartões. Das lembranças dessas saídas ficaram o grande calor e o cansaço que sentia. Minha tia, acho que também ficava cansada, porque ao voltarmos ela dizia que íamos descansar e ela e eu dormíamos na sua cama de casal. ”Fica quietinha Odette e dorme” é o que ela invariavelmente dizia. Acho que dormia logo, acompanhada do olhar de uma Nossa Senhora, que ficava pregada na parede, sobre a cabeceira da cama.

       Aquela Nossa Senhora é um capítulo a parte. Não sei se me enganava, o que é fácil ocorrer para uma criança de cinco anos, ou se aquilo tinha uma explicação que mesmo agora, sessenta e cinco anos passados, ainda não tive. O fato é que o olhar da Nossa Senhora me acompanhava, à direita, se lá estivesse, ou à esquerda, ou em frente, enfim em qualquer posição que me colocasse. Sempre foi e continua sendo um grande mistério para mim aquele olhar que me acompanhava em todos os pontos do quarto que estivesse.

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       Felizmente o olhar só me acompanhava quando estava no quarto, afortunadamente, porque aprontava um pouco.

 

 

       Meus primos eram moços. Minhas duas primas cursavam o normal, o curso que formava professores do ensino fundamental, que antigamente se chamava primário. Como futuras professoras tinham aulas de desenho pedagógico. O caderno de desenhos delas era cheio de patinhos, gatinhos e outros tais. Eles ficavam fechados numa escrivaninha que tinha uma tampa que a gente abria e fechava, mais ou menos como se fosse um toldo. Gostava de abrir a tampa e ver ela sumir, embutida em algum lugar. Abria a escrivaninha, pegava os cadernos de desenho, que eram material didático, e não para rabiscos, e me punha a fazer os meus patinhos, os meus gatinhos, procurando copiar os delas. Agora imagino o quanto elas ficavam furiosas com o estrago no seu caderno.  Não me lembro, entretanto de nenhuma saia justa para o meu lado. O que gostava também era quando vinham os amigos do meu primo, todos moços, como ele . Eles me colocavam no colo brincavam comigo e tinha um deles de quem dizia não gostar dos beijinhos porque eram molhados.

 

 

       O ponto alto nas estadas na casa da tia Laura era quando ela me deixava decorar algum cartão. O processo era assim: apertávamos um pequeno tubo com goma arábica, ou seja, cola. Ela saía por um buraco pequenininho e a gente ia passando essa cola nos lugares do cartão que a gente queria decorar. Vamos supor uma árvore de Natal. Ela tem seus galhos, que é onde a gente pendura as bolas, nestes galhos era passada a goma arábica, e depois em cima era jogada a purpurina. A árvore ficava com os galhos todos dourados. Era um serviço que requeria uma boa coordenação motora, pois a cola só podia, por exemplo, ser passada nos galhos, pois, senão a purpurina seria colada em algum lugar que não deveria ter nenhum adorno. Imagine como isto era um deleite para uma criança de cinco anos.

 

 

       Dos meus cinco, seis anos, vôo para os dezesseis. Foi quando comecei a viajar com a tia Laura. A primeira foi para uma estância em Atibaia. Fomos minha prima, já casada, com seu marido e filhos, minha tia e eu. Ficamos em um chalé, e meus primos com seus filhos, aliás, meus primos em segundo grau, em outro. Tia Laura e eu batíamos muito papo à noite, no chalé, e também no restaurante onde tomávamos as refeições e que ficava na sede do hotel. Adolescentes não costumam ser boa companhia para adultos, mas acredito que naquela época não tinha a síndrome de “teen”. As conversas eram muito agradáveis e gostava de estar com minha tia e provavelmente a recíproca era verdadeira.

 

       Lá no hotel, na sede, alguns casais faziam, à noite, uma mesa de buraco e para lá íamos o marido da minha prima e eu. O jogo era a leite de pato, mas nos distraíamos. Todas as noites lá íamos meu primo e eu, e só voltávamos tarde. Um dia minha tia me disse que não ficava bem estas saídas noturnas e cortou meu barato. Não contestei, aceitei numa boa, pois, estava acostumada a obedecer meus pais, em especial minha mãe, que era muito brava.

 

       Durante a temporada choveu uns dois dias e a temperatura caiu bastante. Tinha levado apenas shorts e blusas (hoje seriam camisetas), para usar durante o dia, e vestidos para os jantares. Não tinha um agasalho sequer. Sentia muito frio. Quando uma das senhoras que fazia parte do grupo da mesa de jogo, me convidou para a festinha de aniversário do filho, que ia ser comemorada no hotel, comecei a chorar. Eu me lembro de ter pensado que não teria roupa para a tal festinha. Delírio de adolescente: o que vestir para uma festinha infantil, pois, estava frio e eu não tinha um traje de gala para tal evento! Bem, delirando ou não comecei a chorar, dizendo que estava com saudades de casa. Isto é até possível que estivesse ocorrendo porque se estivesse casa não estaria passando frio. O fato é que imediatamente essa senhora montou a mesa de jogos e convidou alguns casais, no afã de me distrair, com toda certeza morrendo de pena de mim. Acho que tinha algum ibope com adultos. Um joguinho à tarde minha tia Laura não iria se opor. Imediatamente parei de chorar, no fundo, no fundo, me sentindo muito importante.

 

 

       Depois desta viagem para Atibaia passei a ir com a tia Laura frequentemente para Santos, onde a minha prima tinha um apartamento. Por vezes ia com toda a família, mas muitas vezes só com minha tia. Ela me elegera sua acompanhante. Daquelas ocasiões o que me recordo como se estivesse vivendo o fato agora, é o de enrolar minha tia antes de ir para o almoço em algum restaurante. Tomava meu banho depois da praia, e depois começava a me vestir bem demoradamente. Não terminava nunca, e depois de algum tempo dizia a ela que podia ir sozinha, pois, iria em seguida. Assim que ela saía, eu ,rapidinha, terminava de me aprontar e ia em algum barzinho tomar uma caipiroviska. Nunca soube se ela não percebia, pois, provavelmente chegava toda loquaz e com os olhos brilhando. Nunca falou nada, mas, sei que ela não aprovaria, pois era de costumes rígidos e bastante conservadores. Afinal, ainda nem tínhamos chegado na década de sessenta. Está ai um hábito que tenho até hoje. Para mim, praia tem que ter caipirinha.

 

 

 

 

       Que saudades me bateu agora da tia Laura.

  

 

       Continuei indo com ela para Santos, mas um tempinho se passou e entrei na Faculdade de Direito. Resolvi então que queria trabalhar. Embora tivesse estudado Grego, Latim, Filosofia, etc., não tinha qualquer habilitação para um emprego. Não é que a tia Laura me arrumou um emprego? A forma foi no mínimo inusitada. Perto do apartamento dela tinha uma escola de idiomas. Ela entrou e perguntou se não estavam precisando de professor de inglês porque ela tinha uma sobrinha que falava muito bem. Ora, ela tinha ouvido falar que eu era fluente em inglês, mas não poderia avaliar. Entretanto ela acreditava em mim. Se diziam isso a meu respeito, tinha que ser verdade, ela confiava em mim; não era apenas a companhia para viagens.

        Graças a ela consegui meu primeiro emprego e nele permaneci até começar a trabalhar como estagiária de Direito. Ia para a Faculdade de manhã, trabalhava no escritório à tarde e depois ia para a escola lecionar. Não tinha tempo para passar em casa, tomar banho, fazer um lanche, antes de ir para meu segundo emprego. Mais uma vez minha tia Laura estendeu sua mão. Antes de ir para a escola onde lecionava , passava na sua papelaria, pegava a chave do apartamento, e lá tomava banho e lanchava. Neste quesito minha tia era como a minha tia Esther, do sítio encantado. A mesa da sala de jantar de sua casa nunca estava vazia. Ela era forrada de bolos, doces, e não me lembro de quais outras iguarias, mas tinha tudo que você possa imaginar para um fartíssimo lanche.

       Tomava banho e lanchava, sentindo-me em sua casa como se estivesse na minha. À caminho da escola passava na papelaria e devolvia a chave, que no dia seguinte, com muito carinho ela me emprestava novamente.

 

       Alguns anos se passaram, casei-me, tive meus filhos e já não a visitava com muita freqüência, mas, alternava as esporádicas visitas com saudosos telefonemas. Sabia que do outro lado da linha estava uma pessoa muito querida e que correspondia este afeto. Tenho que confessar que algumas vezes ficava enciumada quando ela dizia que o primeiro sobrinho, por esta condição, tinha um especial significado. Eu não era este primeiro sobrinho, mas parece que isto não alterou o carinho que ela sempre me dispensou.

 

 

       Ela perdeu seu filho mais velho, aos quarenta e nove anos, por problemas cardíacos. Desde então, envolta em profunda depressão, encerrou-se num mundo só seu. De certa forma, despediu-se de nós para viver mergulhada na sua dor. Ainda viveu muitos anos, mas, não pude mais participar de sua vida. Só restou o esboço de um sorriso, que conheci largo, nas poucas vezes que voltei a vê-la.   

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