As Flores

 

 

            Costumo ter, via de regra, como fonte de inspiração do tema das minhas crônicas, algo que me passa pela cabeça em um dado momento. Foi assim com a primeira crônica, “Chuva”, quando cantarolava a música, e, também, em idêntica situação, quando escrevi “Casa de Campo”. Desta vez o tema da crônica surgiu depois de conjecturas sobre o golpe militar de 1964. Possivelmente, porque se voltou a discutir a punição de “torturadores” , estes ligados ao negro período da ditadura militar.

 

 

       Tomei conhecimento do golpe quando estava em um ônibus, voltando da Ford, em São Caetano, onde dava aula de português para um executivo americano. Só ouvi a voz de um rapaz falando: mas porque ele não vai à rádio (este era o meio de comunicação mais rápido, naquela época), e a resposta: se ele for vão prendê-lo. Foi tudo muito silencioso, completamente inesperado. É bem verdade que naquela época não era muito politizada, tenho que admitir, com alguma vergonha, mas a maioria dos brasileiros também não o era. Simplesmente da noite para o dia ficamos sob uma ditadura militar, repressora e onipresente na sua sanha de censurar e punir, culpados e inocentes.

      

       Em 1968, sob o governo Costa e Silva foi promulgado o AI-5 que desencadeou um período de horrores. O que sempre me causou espanto é que ele foi apresentado pelo ministro da Justiça Gama e Silva. Eu o conheci pessoalmente, como meu professor na Faculdade de Direito, e jamais imaginei que esta pessoa fosse um dia pactuar com as barbaridades e atrocidades que se seguiram. O Big Brother, desta vez falando do livro 1984, de George Orwell, estendia seus tentáculos de forma onipresente. Nada escapava à censura.

 

       Neste ano o compositor poeta Geraldo Vandré apresentou em um festival a lindíssima música “Pra não dizer que não falei de flores”, que também é conhecida como “Caminhando”, repleta de metáforas, numa alusão ao período que passávamos. Não posso deixar de registrar aqui um dos versos da música:

                                  

                                   Pelos campos há fome

                    Em grandes plantações

                    Pelas ruas marchando

                    Indecisos cordões

                    Ainda fazem da flor

                    Seu mais forte refrão

                    E acreditam nas flores

                    Vencendo o canhão……

 

 

       E foi assim, pensando na música “Pra não dizer que não falei de flores” que resolvi usar o tema  As Flores,  como objeto desta crônica.

       Enquanto maturava a idéia vi que podia falar delas não só por inundarem toda nossa vida, encher nossos olhos de beleza, contribuírem para tornar o mundo mais bonito, mas, também sob outro viés.

       As flores também podem estar inseridas em movimentos sócios – políticos, na economia, nos esportes e até num Evangelho. Na saúde elas também ocupam espaço, pois, estudos falam do bem estar trazido ao paciente em um ambiente com flores.

 

 

       O meu primeiro exemplo da inserção das flores na política é a música de Geraldo Vandré que, apresentada no Festival Internacional da Cultura, há 40 anos completados no dia  29 de setembro de l968, teve o resultado manipulado, com toda certeza, pelo Big Brother onipresente. A canção vitoriosa foi uma música, também linda, da autoria de Jobim e do também compositor poeta Chico Buarque de Holanda. O público não se conformou com o resultado e este foi vaiado por 15 mil pessoas no Maracanãzinho.  A música de Vandré, lindíssima e engajada  “Pra não dizer que não falei de flores” recebeu o 2º lugar, mas logo foi censurada.

       Em 1980 tive notícias de que o compositor tinha enlouquecido por conta das torturas que sofreu. Se você procurar seu paradeiro no Google, vai encontrar também esta informação, entre outras, que inclusive dizem que o compositor nega ter sofrido torturas. Quem viveu aquele período negro da nossa ditadura militar, com toda certeza, não vai acreditar nessa declaração.

 

 

       Bem, falei do uso de flores, num movimento sócio político no Brasil há não muito tempo, mas não podemos nos esquecer da Revolução dos cravos, em Portugal, o movimento que derrubou o regime salazarista em 1974. Com a deposição de Marcelo Caetano, que substituiu Salazar que tinha sofrido um AVC, a população saiu às ruas para comemorar o fim da ditadura e distribuiu cravos, a flor nacional, aos soldados rebeldes, sob forma de agradecimento.

 

       Há não muito tempo houve protestos no mundo inteiro contra a guerra do Iraque. Participaram países como Paquistão, Síria, Egito, Rússia, França, Grã Bretanha, Argentina, México, Japão e também no Brasil houve manifestações. Os manifestantes no Japão usaram cartazes e flores colocadas no cano de armas.

             

       Voltando há alguns séculos atrás, entre os anos de 1453 e 1485 houve a guerra das rosas, envolvendo duas famílias nobres, pela conquista do poder inglês. O nome guerra das rosas teve origem no fato de a família real trazer no seu brazão  uma rosa vermelha e a de York uma rosa branca.

 

Lancaster

 

 

York

 

       Em nome do protocolo, nas relações político diplomáticas, não há uma vez sequer que os governantes, em visita ao país anfitrião, deixem de depositar uma grinalda de flores, no monumento erigido como homenagem ao soldado desconhecido.

        

 

       Saindo do campo dos movimentos sócios políticos, temos que visitar a presença das flores na economia.

       Estamos agora vivendo uma grave crise econômica dos EUA em conseqüência da “bolha imobiliária”. Antes eles tiveram a “bolha” da Internet.

 

       Não é que a Holanda, no século XVII teve também sua “bolha”, e tulipas deixaram Amsterdam à beira da bancarrota? Pois é, um arranjo de tulipas custa cerca de R$30,00, mas, na Holanda do século XVII, para comprar um só bulbo da flor era necessário dispor de 24 toneladas de trigo. Tamanha valorização fez os produtores fecharem contratos futuros informalmente. A cada ano o preço das tulipas se inflacionavam e alcançavam valores exorbitantes.

Em 1637 a “bolha” estourou. Os negociantes começaram a vender os contratos e o mercado fictício desapareceu, assim como evaporaram as propriedades e tudo o que os holandeses empenharam na tulipa mania. Assim como o governo americano já torrou U$1 trilhão para aliviar a crise (e deve gastar em breve outros bilhões) o governo holandês teve de intervir. Os contratos podres eram comprados por 10% do seu valor. Estas informações obtive  no Uol em 21/09/2008.

 

       Ainda falando em flores e economia, temos a Colômbia como o maior exportador de rosas. Pois é, eles também exportam beleza. A Colômbia em 35 anos de atividade no setor tornou-se o 2º exportador de flores em geral do mundo, atrás apenas da Holanda. Aliás, as tulipas são uma outra história. Pode-se até dizer que é um símbolo do país. Vi uma tulipa ao vivo e a cores pela primeira vez em Nova York, na chiqueterrima 5ª Avenida. Tinha que ser lá. Hoje, elas bateram as orquídeas que até há alguns anos atrás eram o símbolo do bom gosto. Ditam as regras da etiqueta que quando se é convidado para um jantar, deve-se levar flores para a anfitriã. As caixinhas com orquídea eram disparadas as preferidas, para presentear aquela que nos recepcionava. Será que ainda são?

 

 

Na olimpíada de Pequim, neste ano, notei que os atletas, que subiam ao pódio, recebiam flores, além de medalhas.                           

          Desta vez são as flores ligadas ao esporte.

      

 

       Agora que já falei de flores ligadas à movimentos políticos, à economia, à saúde e ao esporte, resta falar de sua inserção num Evangelho. Mateus em 6.28 e 29 deixou registrado o tão conhecido:

 

       Olhai os lírios do campo, eles crescem, não trabalham e nem fiam, e eu vos digo que nem mesmo Salomão, com toda sua glória, se vestiu como um deles.

 

        Mas, flores se inserem em todos aqueles campos, pois  na realidade, inundam nossa vida do nascimento aos derradeiros momentos.

 

       Na maternidade, a mamãe que acabou de fazer vir ao mundo um bebezinho, recebe flores de muitos que a visitam. Antes ela já tinha recebido muitas flores no decorrer de sua vida. Já recebeu como galanteio, como homenagem pelo seu aniversário, e elas já estiveram presentes no dia que considerara o mais emocionante de sua vida.

 

       Naquele dia havia uma profusão de flores. Elas embelezavam o lugar da cerimônia, faziam-se presentes  no bouquet da noiva, que, se  de rosas, seriam colombianas.  Ao som de uma emocionante marcha nupcial ela, nesse dia, une-se a quem ama, esperando, já que não há mais príncipes e princesas de contos de fadas, a vaticinar que o casal será feliz para sempre, que o amor seja eterno enquanto dure.

       Outras uniões podem não ter tido o mesmo glamour, mas os anseios são os mesmos e a vida em nada diferirá.

       Ao longo dos anos muitas flores serão dadas para comemorar aniversários, datas especiais, e até mesmo, quem sabe, uma caixinha com uma rosa, quando  houve algum fato tristonho, acompanhada de um cartãozinho dizendo: “na vida é preciso que haja momentos tristes, para que os de felicidade sejam ressaltados”.

       As flores também se fazem presentes em casa, num arranjo, nos jardins, que a cada estação faz espécies diferentes brotarem. Sempre embelezando os olhos, enchendo o mundo de cores até mesmo quando algumas nuvens cinza pairam no cotidiano por vezes tão difícil de parecer colorido.

 

       As flores também são uma homenagem que se presta para aquele que se foi.  Uma das homenagens mais fortes, nos últimos anos, foi a dos britânicos, que inundaram as ruas de flores, em frente ao palácio de Buckinghan, na despedida da princesa tão amada pelo povo.

 

       Alguém se vai, mas, logo um bebezinho dá o seu primeiro choro, celebrando a vida e o ciclo das flores.

 

       Houve uma época em que a minha alma só via em branco e preto. Na época escrevia poesias densas sem que um arco íris fosse vislumbrado. Assim mesmo, naquele mundo sem cor, eu muitas vezes sorri para uma árvore no meu jardim, de flores pétalas vermelhas, que no inverno frio parecia aquecer minha alma.

       Agora é primavera e eu estou aqui, cercada de cores e flores, nas ruas, em casa, em qualquer lugar, numa celebração à vida, que é o que fazem as flores.

      

 

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