musica

 

A música

 

       Acho que Deus já fez um mundo musical. Nas pouquíssimas vezes em que tive insônia, notei que quando os passarinhos começavam a cantar era porque a manhã se aproximava. O seu piar é de uma sonoridade alegre, como se alguém já iniciasse o dia cantando, porque estava muito feliz. A única coisa que sei sobre o canto dos pássaros é que eles alegram a vida, mas ornitólogos se deram ao trabalho de gravarem o canto deles e um deles já gravou 4 CDs com o canto de 276 espécies. Imagine que festival de alegria. Os próprios pássaros sabem quem canta melhor. Este “campeonato” ocorre em duas ocasiões. No canto amoroso eles cantam para conquistar as fêmeas, cada vez mais e com mais beleza. Elas avaliam e escolhem os que cantam melhor.

 

       Além do canto amoroso, a beleza da música também está presente no canto chamado territorializante que se destina a marcar território. São mais bonitos que os cantos de amor. Os pássaros estabelecem uma espécie de torneio: cantam, e se um pássaro entender que o canto do outro é melhor ele sai. Aquele que cantar com mais beleza fica com o território e ali faz seu ninho.

       Parece mentira, mas, eu não estou inventando, isto é resultado de pesquisa de ornitólogos.

 

       Os pássaros cantam e os pombos e rolas arulham. Isto é também o que fazem os namorados quando em momentos de ternura, dizendo palavras doces, amorosas.

       Enfim, a música, é sempre a manifestação de um doce sentimento. 

 

 

       Em outras crônicas, quando queria citar algo muito, muito antigo, eu me valia de citações bíblicas, em especial do Gênesis. Hoje volto a citar um relato bíblico dado que os instrumentos musicais têm acompanhado a humanidade desde os tempos mais antigos. O primeiro relato bíblico confirmando isto encontra-se no livro do Gênesis 4.21: “ O nome de seu irmão era Jubal; este foi o pai de todos que tocam harpa e flauta”.

Agora vamos de darwinismo

 

 

 

 

Flauta

flauta 

 

 

 

 

       A flauta é o primeiro instrumento da humanidade, existente em todas as culturas primitivas. Em pinturas rupestres (as feitas em cavernas), que datam de 60000

 anos A.C., foram descobertos desenhos de flautas e apitos. Provavelmente foi sempre muito utilizado pela sua facilidade de construção, sendo da família das madeiras. O homem neolítico, com intenção de imitar o som dos pássaros, produziu este instrumento de sopro confeccionando com bambus perfurados.

 

Harpa

 harpa

 

 

 

 

 

 

       A harpa, juntamente com a flauta também é um dos instrumentos mais antigos. Teria se originado dos arcos de caça que faziam barulho ao roçarem na corda. A harpa é sempre triangular, lembrando um arco de caça. Tem-se conhecimento, através de fábulas épicas, poesias e trabalhos de arte que as harpas existiam séculos antes de Cristo, na Babilônia e na Mesopotâmia. Foram encontrados desenhos de harpas na tumba do Faraó egípcio, Ramsés II, (1198-1166 A.C.) e também na Grécia Antiga.

 

 

 

 

Liras

 instrumentos-antigos

 

 

 

 

 

 

       A lira também é dos mais antigos instrumentos. A imagem acima mostra algumas liras bem antigas. Elas são gregas, celtas , egípcias e outras. Diz a mitologia grega que Apolo foi seu inventor e ele é conhecido como o protetor das artes, da música e da inspiração poética. Talvez seja por isso que as palavras lírico, lirismo vêm do uso desse instrumento.

 

 

        Não sei se é lenda, mas, Nero fez desse instrumento  um uso pouco nobre, para dizer o menos. Dizem que placidamente tocava lira enquanto Roma ardia em fogo.

 

       Bem, depois de falar dos instrumentos que acompanham a humanidade desde os seus primórdios, quero falar da música como emoção.

 

       A última crônica que escrevi falava sobre as flores, sua beleza adornando nossa vida, nosso mundo, enchendo nossos olhos de luz. Outro dia, ao ouvir uma música a achei belíssima e ela me proporcionava uma emoção tão grande que cheguei a ficar arrepiada. Nesta hora senti a diferença entre as flores e a música. Ambas trazem beleza a nossa vida, mas, a música a transcende. Ninguém diz ter ficado emocionado ao ver flores, mas sente algo diverso ao ouvir uma música que por algum motivo o toca. Tive uma experiência dessa há poucos meses, quando estava em Veneza. Em frente a um café, uma pequena orquestra tocava a música Night and Day. Ao ouvi-la, principalmente sob os acordes de um violino, derramei umas lágrimas de pura emoção. Talvez, naquela ocasião, o ambiente  também estivesse influindo nos meus sentimentos, mas de qualquer forma a música exacerbou minha emoção.

 

       Não importa se a música é sertaneja, clássica ou  popular. No meu último ano de jornalismo nosso trabalho de conclusão de curso foi numa cidade do interior, onde trabalhamos as diversas mídias. Trabalhei com rádio e para isto, para um dos trabalhos, utilizei-me de um disco (de vinil) sertanejo que tinha em casa. A cidade era extremamente pacata. Não saiu à rua nem para ver aquela “tribo” que tinha invadido absolutamente sem cerimônia o espaço deles. Mas, quando os clássicos sertanejos, foram ao ar, invadindo o silêncio da  tranquila cidadezinha, seus moradores começaram a sair de suas casas. Foi a única vez em que se manifestaram. Assim é a música, seu estilo é universal. Há para todos os gostos e todas as emoções.

 

Concerto sinfônico

 concerto-musical

 

 

 

 

  

 

       Sempre achei que para apreciar música clássica era necessária educação musical, mas trabalhos que têm se desenvolvido em periferias, com crianças carentes de tudo, são, literalmente, de arrepiar. Ver as crianças executando peças sinfônicas, com uma maestria e beleza como se tivessem nascido num ambiente onde a execução de tais peças fizesse parte do dia a dia, é arrebatador. Concertos de música erudita, embora em raríssimas ocasiões, têm como palco espaços campais. Neles, não eruditos misturam-se àqueles em que a educação musical se fez presente e, portanto, aprenderam a amar a música clássica.

       Quando há esses concertos a mídia está sempre presente. É comovente ouvir com que arrebatamento pessoas carentes dão seus depoimentos. A música os comoveu, por sua beleza foram levados, embora aquela tenha sido a única ocasião em que ouviram música erudita.

 

       Talvez pareça um contraponto insólito falar em música clássica, logo depois de falar sobre a sertaneja. Ocorre, entretanto, que só estou falando de música, como fonte de emoções, e elas não fazem distinção entre os gêneros musicais diversos.

 

 

A música dita popular abriga tantas correntes, tantos gostos diferentes que é possível encontrar, numa mesma casa, o marido que odeia e a mulher que adora, por exemplo, a bossa nova, que neste ano está completando cinqüenta anos.

   Eu confesso que a adoro, mas, não venham me falar de algumas outras, que não vou mencionar, pois, Por exemplo, o rock para mim não diz nada, mas Elvis Presley faleceu em 1977, portanto, há 31 anos e ainda tem uma imensa legião de fãs.

 

 

       A música pode levar ao êxtase, e também a um delírio coletivo, como por vezes é provocada quando da apresentação de alguns grupos musicais. O público, acompanha seus ídolos dançando, cantando, pulando por horas a fio, sem se importar se chove ou faz um calor escaldante, se está no meio da platéia ou num camarote. Tudo é demonstração da emoção que cada um sente naquele momento,e nada  a faz aflorar com ímpeto maior do que a música.

 

 

       Antes eram três, agora quatro, e em algumas cidades dura, às vezes, mais do que uma semana,o grande delírio de multidões, a grande paixão brasileira: o carnaval, canto, dança, sempre com a música como pano de fundo.

Ópera

 opera

 

 

 

 

 

 

       Deixei para o final falar de ópera porque ela me traz grandes alegrias e ao mesmo tempo uma dor imensa.

 

 

       Quando era pequena e mais tarde quando adolescente, meu pai me levava ao Teatro Municipal com certa freqüência. Ia com ele ouvir concertos sinfônicos, ver apresentações de ballet clássico e assitir óperas. Tenho algumas lembranças de meu comportamento como quando uma vez falei com vozinha infantil:”que música feia papai” e dele ouvi:”psiu, são os músicos afinando os instrumentos”. Outra recordação bastante forte é quando assisti ao extraordinário bailarino Nureiev. Naquela idade não conhecia ainda os códigos dos aplausos, entretanto, levantei-me e me pus a aplaudir vigorosamente, tão fascinada fiquei.

       As duas óperas que mais me marcaram foram Aída e Madame Buterfly. Da ópera Aída lembro-me como marcante o coro que demonstrava o júbilo de uma nação vitoriosa na guerra. Quanto à Madame Buterfly, meu Deus, que recordações de beleza e muito dor.

 

       Quando meu pai faleceu, há quase trinta anos, entrei numa profunda depressão, que se arrastou num tratamento por quase dois anos. Tive picos diferentes na doença e numa ocasião, a lembrança da ópera desencadeou um processo de dor e descobertas.

 

       Tudo começou quando meu filho, que na ocasião tinha nove anos, me perguntou se achava bonita uma determinada música. Respondi que era linda mas muito triste. Muitas horas depois lembrei-me da minha resposta e me questionei: como algo pode ser belo e triste ao mesmo tempo?  Naquele instante lembrei-me do meu pai e da ópera Madame Buterfly.  A vi com nitidez, entoando uma belíssima ária, quando estava próxima de matar-se, por julgar ter perdido o homem amado. Naquela hora ela se despedia da vida, mas no seu canto havia simultaneamente grande beleza e muita dor.  Depois desse flash back tudo  se clareou em minha mente.

      

       Foi através do meu pai que conheci o Belo que se manifestava nas artes, foi com ele que aprendi amar os livros, os estudos. Fora ele quem me introduzira nesse mundo onde tudo é beleza. Com sua partida, aquele mundo também se fora, ficando apenas o mundo das lutas cotidianas, do sem fim de projetos a serem perseguidos, o mundo de muitos sonhos e esperanças a serem realizadas ou não.

 

       Entendi porque tanto sofri com sua partida, embora a dor não tivesse me abandonado. Tantos anos passados e agora convivo com os dois mundos: o do Belo e o da Luta, e a ária cantada tão pungentemente unindo a dor e a beleza, permaneceu na minha memória, mas da partida do meu pai houve só dor e tristeza.