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Crime e Castigo

 

 

         É horrível esta imagem. Não se deseja tal tratamento para seres humanos e nem mesmo para animais. Mas, é assim que eles são tratados. Não sou defensora de direitos humanos, mas, tenho refletido sobre o tema, principalmente a partir de considerações do jurista Walter Ceneviva, publicada na Folha de São Paulo em 1º de novembro e do colunista Ferreira Gullar, publicada no mesmo jornal em 2 de novembro.

 

        O título deste post é de um livro de Dostoievsky, onde, fazendo algumas atualizações, diz o seguinte: “A delinqüência, entre as classes D e E, nos últimos cinco anos sofreu um grande incremento; também não falo dos contínuos roubos e incêndios. O mais estranho de tudo, para mim, é que também nas classes elevadas da sociedade aumentou igualmente a criminalidade e, por assim dizer, paralelamente….Aqui, prenderam um bando inteiro de falsários que operavam no último sorteio da loteria e vê-se que um dos principais comprometidos é um catedrático de história universal……Como explicar este desenfreamento duma boa parte de nossa sociedade civilizada? Este livro foi escrito há um século e meio e, pasme-se, no século XXI, o mesmo vem acontecendo.

 

Como deter a criminalidade?

         Ferreira Gullar questiona a argumentação de que a sociedade, suas desigualdades, são as responsáveis pela delinqüência. O único raciocínio que nos leva é então, como diz o cronista, quem cometeu o crime não é o responsável, os responsáveis somos nós. Como fica então o ínício dessa cadeia de responsabilidades?

 

        A punição serve apenas como instrumento de castigo, de vingança, mas só forma mais criminosos pós – graduados. Mas, por outro lado, a impunidade, de enormes proporções em nosso país, é, com toda certeza, um estímulo para práticas delituosas, embora países desenvolvidos tenham até pena de morte, e crimes atrozes continuem ocorrendo. Aliás, países que ostentam os menores índices de criminalidade, tais como Noruega, Dinamarca, Suécia, foram os primeiros a abolir a pena capital.

 

        Medidas simples, como trabalho nas cadeias, deveria ser obrigatório, o mesmo se diga da introdução de ensino, como forma compulsória, talvez até mesmo premiando com diminuição de pena. Procurei  colocar uma  imagem menos chocante, mas não consegui, para, quem sabe, com um impacto menor pudéssemos buscar alguma luz, neste túnel tão escuro.

             Quando falei de ensino lembrei-me de um fato pitoresco, sobre um crime que não foi consumado, por um erro de português. Criminosos escreveram no carro que serviria para o assalto o nome da empresa: empório X, com i: impório e ainda puseram o www.impório X. Algum policial, mais alfabetizado, percebeu e foi feito o cerco aos criminosos que não puderam consumar o plano elaborado.

 

        Bem, só fiz esta pequena pausa no meu raciocínio, para eu mesma ter tempo para alinhavar reflexões.

 

        Ferreira Gullar, quase ao final da crônica sintetiza que: “o respeito às normas não é algo inato e sim, incutido nas pessoas pela educação, visando tornar seguro e pacífico o convívio social”. Esta ênfase na educação parece ser uma unanimidade. Sem estar fazendo um trabalho de copia e cola, coloco em meu socorro uma coluna do Gilberto Dimenstein, mostrando a importância ímpar da educação. Sob o título de “Como Brasília perdeu uma prostituta”, publicada em 9 de novembro, ele narra como se deu tal processo.

       

        Há um centro educacional na favela do Parque Santo Antônio, na zona sul de São Paulo. Uma das freqüentadoras deste centro era uma menina que vendia seu corpo e ainda dividia com um rapaz da escola em que estudava. Imagine a auto-estima desta menina! Vendia-se por R$ 10,00. A educadora do centro educacional, que além de educadora deve saber manejar muito bem a arte de seduzir, quando deseja alcançar um fim, propôs-se a preparar a menina para ser prostituta em Brasília enfatizando que para tanto ela deveria ter uma bagagem intelectual. Acrescida às aulas de conhecimentos gerais, houve reflexões sobre autonomia e responsabilidade. “A auto estima era trabalhada em projetos de arte e comunicação”.

        Sem entrar em detalhes outros, explicados na coluna, a menina fez um cursinho pré vestibular gratuito e entrou na USP. Formou-se em odontologia.

 

        Há várias experiências com crianças carentes, trabalhando em projetos musicais, de esportes e talvez outros que no momento não me recordo. O fato é que, todas essas crianças, para continuarem agregadas ao projeto, precisam apresentar um bom desempenho escolar.

 

        Tenho lido também, que escolas que aos fins de semana permanecem abertas para a comunidade, via de regra, não sofrem atos de vandalismo.

 

        O que parece é que projetos que retiram sejam crianças, sejam adolescentes, da exclusão, são sempre permeados pela educação. O mais recente exemplo disto é o projeto do presidente eleito dos EUA. Num projeto que lembra um pouco a nossa “Bolsa Família” ele quer criar a “Bolsa Disciplina” para estudantes de escolas públicas que tiverem bom comportamento e tirarem boas notas. Pois é, lá no país mais poderoso do mundo os alunos de escolas públicas também praticam atos de vandalismo, são agressivos, desrespeitam professores, como no nosso país. Uma pequena mostra nos foi dada no filme “Ao mestre com carinho”, estrelado por Sidney Poitier. O ator tem atualmente perto de 80 anos, mas, aquele filme marcou e até pode ser baixado na Internet. Li depoimentos de professores que resolveram se tornar educadores depois de assistirem ao filme. Espero que muitos tenham conseguido ao menos uma fatia do que aquele mestre conseguiu.

 

        Trabalhar a auto-estima dos alunos excluídos é fundamental para alcançar qualquer sucesso em direção ao aprendizado. Isto fez o magistral desempenho de Poitier, isto fez a professora Dagmar, que se propôs a preparar uma adolescente para se tornar uma prostituta em Brasília, isto fazem aqueles que colocam nas mãos de favelados violinos, violoncelos e todos aqueles instrumentos musicais que com grande beleza se transformam em concertos, deslumbrando platéias e, imagino eu, enchendo de orgulho os jovens musicistas.

        Muitos projetos concretizados, como estes citados, provavelmente tiraria da rua futuros delinqüentes, e quem sabe aos poucos, iria diminuindo a criminalidade. 

 

        A solução para a ausência de criminalidade não pode ser assim tão simples, mas, lugares onde o IDH é alto, a delinqüência é baixa. Exemplo disso são países como Suécia, Noruega, Dinamarca que estão sempre no topo do ranking. Os Estados Unidos são um país rico, mas a desigualdade de renda é alta. Some-se a isso ao fato de que é um país belicista e onde seus habitantes têm tanta facilidade para ter acesso às armas que acaba produzindo os Columbines e outros terrores de tal calibre.

 

        Estas minhas reflexões estão longe de apresentar uma solução realmente conclusiva e até podem ser objeto de muitas contestações, mas é a que me levou a visualizar alguma luz no fim do túnel, embora de forma muito superficial, frente a este formato discursivo despretencioso.  

 

 

        Como fecho, coloco a imagem de uma cadeia norte- americana, talvez tão chocante, embora sob outro ângulo, da imagem que abriu este espaço de reflexão.

 

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