CASA DE CAMPO

 

       Muita gente gostaria de ter uma casa de campo, pelas mais variadas razões. Elis Regina queria uma para compor muitos rocks rurais. Eu nunca quis ter, mas já estive em uma, tão estilosa quanto à da imagem.

 

       Foi há muito tempo, quando filhos, netos e talvez alguns bisnetos se reuniram para comemorar o aniversário de oitenta  anos de minha avó. A comemoração foi na casa de campo de uma prima, lenda na família por sua beleza e seu casamento milionário. Guardei muito poucas recordações deste dia. Lembro-me de uma piscina grande, cheia de gente, deviam ser meus parentes, e minha prima, vestindo um maiô preto, que era muito chique naquela época. Lembro-me que meu marido e eu ficamos num quarto muito aconchegante, num desvão que acompanhava a arquitetura da casa. Fiquei até orgulhosa com o quarto que nos tinha sido reservado. Lembro-me também de uma cozinha muito grande, cheia de empregados, o que não poderia ser diferente, pois o número de convidados era também muito grande. Quando minha avó fez oitenta anos estive numa casa de campo, muito bonita, de uma prima socialite. Isto é tudo de que me lembro.

 

 

       Aquela casa de campo não significou nada para mim.       Entretanto, outra casa no campo, deixou em mim e em todos os outros que a freqüentaram, recordações maravilhosas e até me atrevo a dizer, mágicas. Era a casa no sítio de meu tio José João e minha tia Esther, de meigos olhos azuis, chamada pelos sobrinhos de Tetéia. Meus primos iam para lá com seus filhos, bem como meus irmãos com os seus.

       Tudo era rústico naquele mundo encantado. A casa, grande, com suas janelonas imensas, embora sendo muito mal distribuída, transpirava aconchego. Na sala de jantar, de grande dimensão, havia uma outra mesa que nunca estava vazia, sempre cobertas de quitutes que pareciam um manjar dos deuses. A balança e os rostos redondos denunciavam a fartura e a comilança de uma temporada passada no sítio. Creio que quando pequena não sentia tanto a mágica daquele sítio encantado. As vezes em que fui para lá quando adulta e principalmente depois de casada, levando meus filhos, é que me dei conta da atmosfera de encanto que por lá se fazia presente. De uma forma ou de outra quem lá esteve expressa o que sentia. Minha irmã, ao levar seu filho de oito ou dez anos, enquanto andava pelo sítio, disse a ele que aquela terra, onde pisava, a conhecia. Traduziu em palavras a atmosfera mágica que cada um a seu modo sentia.

 

 

       Lá não havia luz elétrica. Na hora do jantar era ligado um lampião a querosene que iluminava a mesa suficientemente. Nos quartos a iluminação era à vela e em época de pernilongos ficava acesa a noite inteira, a cobra, uma espiral verde que queimava e ia se transformando em cinza. Meus primos da cidade pareciam não acreditar quando dizia que não havia iluminação elétrica e invariavelmente perguntavam como é que a geladeira funcionava. O fato é que não havia geladeira. Tudo era feito na hora e acho que minha tia tinha tamanha noção de quantidade a ser feita que nunca sobrava nada, e olha que a fartura era enorme.

       Uma ocasião meu tio recebeu uma herança e mandou instalar um gerador. Algum tempo depois minha tia comentou que tinha passado praticamente a vida toda sem luz elétrica, mas depois que passou a tê-la sentia uma falta enorme quando por algum motivo ela faltava.

       Não havia também rede de água. Toda ela vinha de um poço que precisava de alguns rituais de ligar a bomba e provavelmente também desligá-la. Isto não lembro com clareza. A água que bebíamos ficava numa talha, que naquela época até algumas casas na cidade tinham. Era de argila porosa que parece ter a propriedade de esterilizar a água. O fogão era a lenha e somente depois do advento da luz foi comprado um, a gás, mas o de lenha nunca foi abandonado.

        À noite, numa mesa da cozinha, escolhíamos o arroz e o feijão para o dia seguinte. Para mim era um grande barato o exercício de tal atividade. Era distribuída para cada participante da mesa uma quantidade, ora de arroz, ora de feijão. Os dois eram em grande quantidade, pois os hóspedes eram sempre numerosos. A iluminação era através de um lampião um pouco menor do que o da sala de jantar.

 

 

 

       Quando comecei a freqüentar o sítio lá era plantada laranja. Houve época em que o plantio era de café, tanto que havia um terreiro enorme, apropriado para a secagem do café e nós, urbanos, dizíamos que bom seria se ali fosse uma piscina. Na época em que era plantado café meu tio tinha vários colonos, a julgar pelo número de casas destinadas a eles, mas quando passou a plantar laranja havia somente dois colonos, apenas uma das casas era habitada.  Era onde moravam o Joaquim e a Joaquina. O primeiro trabalhava na lavoura e a segunda trabalhava na casa. Fazia os serviços domésticos muito vagarosamente, mas, pelo menos quando estávamos lá, arrumava cozinhas imensas. Lavava roupa, passava, num ferro pesadíssimo aquecido com carvão. As roupas que lavava, se brancas, até doíam a vista, tal a alvura. Só soube apreciar isto depois que fiquei dona de casa. Aprendi com ela a quarar a roupa, que consiste no processo de colocar a roupa branca, ensaboada, exposta ao sol, umedecê-la de vez enquanto, e a roupa ficava branquinha, branquinha. Quando tinha em casa alguma peça encardida levava para a Joaquina e ela a transformava. O varal era feito de arame, até lá ainda não tinham chegado os fios de náilon. Era enorme, com o arame preso em bambus fincados na terra. As roupas eram presas lá e ficavam balançando ao vento. 

 

 

 

       Elis Regina queria em sua casa de campo carneiros e cabras pastando solenes no seu jardim. Nesta casa no campo só havia galinhas. Elas viviam soltas, pelo espaço enorme, como era tudo por lá, e para dar o milho para elas emitíamos um som, que eu procurava imitar ao de minha tia, e apareciam as galinhas mais afoitas. As outras apareciam em seguida, atraídas pela distribuição do grão, e nós jogávamos o milho aos montes, até as galinhas começarem a debandar. Algumas vezes transformei a espiga em milho. O processo era o seguinte: a gente tirava a palha e depois colocava a espiga numa máquina que lembrava um pouco as de moer carne que se usava em casa. Feito isso o milho se soltava da espiga e caía numa bacia. Isto a gente fazia num paiol imenso que havia lá. Era outro barato, além da escolha do arroz e do feijão.

 

 

       No sítio também tinha uma cachoeira, onde me diverti muito quando criança, mas do que mais me recordo é que passada a cachoeira havia a porteira de entrada no sítio. Quando o jipe do meu tio passava, quem estava ao seu lado, era encarregado de descer e abrir a porteira. Estranhava um pouco isso porque na minha casa, quem estivesse na direção, descia e abria o portão da garagem, mas meu tio não era figurinha fácil. Passada esta primeira porteira andávamos mais um pouco, até uma segunda, quando então começavam os domínios da casa. Espalhados por todo o terreno havia um número grande de árvores e flores silvestres.

       Houve uma ocasião, casada e com três filhos, que estava muito estressada e fui ao sítio, sem eles, para me recuperar. Vejo até hoje, o que ficou indelevelmente marcado em minhas lembranças, quando passava grande parte do dia em meu quarto, lendo, por horas a fio. Ao levantar meus olhos do livro, via as folhas de uma árvore balançando ao vento e aquilo fascinava meu olhar. Era um misto de beleza e paz.

       Elis Regina queria na sua casa de campo o silêncio das línguas cansadas e naquela casa no campo o balançar das folhas, trazia também o silêncio que minha mente cansada pedia.

 

 

       Escrevendo esta crônica, minhas recordações voam para ocasiões diferentes. Da árvore cujas folhas balançavam ao vento elas pousaram em outra, de ramagens imensas, quase tocando o chão, e vejo minhas filhas brincando de casinha sob esta árvore.

        Lembrei-me da poesia de Casimiro de Abreu:

 

                 Meus oito anos.

 

             Oh! Que saudades que tenho

             Da aurora da minha vida,

             Da minha infância querida

             Que os anos não trazem mais,

             Que amor, que sonhos, que flores,

             Naquelas tardes fagueiras,

             À sombra das bananeiras,

             Debaixo dos laranjais.

 

Minhas filhas, muito pequenas, não brincavam à sombra de bananeiras, nem debaixo dos laranjais. Elas, hoje mamães, nunca souberam que montavam suas casinhas, sob um salgueiro-chorão, num sítio, que era encantado.

 

 

Hoje ele não existe mais.

 

 

 

                   

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