Reflexões

 

 

          “Esse tipo de discussão vai longe. Por onde começar?

Eu realizo um trabalho voluntário de atendimento psicológico para crianças carentes, muitas vezes paupérrimas, e existe um dado em comum a quase todas. Nessa população a organização social é confusa, parece até não estabelecida, porque essa população tenta todos os dias sobreviver do jeito que dá. São famílias sem estrutura, que irmãos “educam” irmãos, de mães batalhadoras, esforçadas, mas sozinhas para dar um mínimo de ordem social dentro da família.

Na maioria dos casos as histórias são recheadas de abandonos, maus tratos e criminalidade.

Com tal estrutura social, como uma criança vai conseguir entender a necessidade de aprender, de comportar-se, de seguir regras se com quem e como vive é uma sobrevivência só.

Por isso acredito que a dificuldade da população carente valorizar a escola o aprendizado também está enraizado em questão sociais básicas.

Maslow colocava que primeiro o ser humano precisa ter suas necessidades básicas satisfeitas para, a partir desse ponto, evoluir para um padrão em que se começa uma busca pela satisfação de necessidades existenciais. A população carente não tem as necessidades básicas satisfeitas.

Parece uma encruzilhada, mas acredito que o modelo social também deve ser atacado para dar condições a essas crianças a acreditarem que a educação fará diferença em suas vidas.”

 

 

        Este comentário foi feito pela minha filha, no post: Educação- um exemplo a não ser seguido, a propósito das altas taxas de evasão e reprovação em São Paulo, o estado mais rico da Federação.

 

        Depois de meditar sobre o seu comentário durante dois dias acabei por encontrar algumas soluções. Se os alunos não vissem a escola apenas como um ambiente que lhes cobra conteúdos, mas também como um espaço lúdico, talvez fossem atraídos para ela. O que chamo de espaço lúdico seria a implantação de “escolinhas” de esporte, de música, que tanto podem ser instrumentais, como simples corais, como há diversos projetos bem sucedidos,  oficinas de artes de um modo geral, dentro das próprias escolas. Os alunos, em horários outros, que não do escolar, voltariam a ela, receberiam um robusto lanche, e se dedicariam ao que mais lhes atraísse. Atrelado ao espaço lúdico poderia haver aulas de reforço e talvez até um pequeno período em que as crianças seriam acompanhadas no desempenho das tarefas escolares. Tais crianças, num universo bastante grande, não têm a mínima condição de fazer em casa as tarefas chamadas de “lição de casa”. As próprias casas em que vivem na maior parte das vezes têm quarto , cozinha e banheiro. Não há nem ao menos, por condições espaciais, local para dedicar-se a isso.

 

        Todas as mães que têm filhos em idade escolar, que conheço, auxiliam seus filhos nas lições de casa. As crianças sobre as quais estava falando, não têm quem as auxilie, por falta de tempo, ou escolaridade.  Assim, é imperioso que outros prestem ajuda às crianças.

 

        As alegações de que não há verbas para custear outros professores, talvez pudessem ser solucionadas através de serviço voluntário. Contudo isto esbarra na burocracia, que provavelmente não permitiria o acesso de voluntários. Mais um entrave a ser superado, não sei como juridicamente, mas apenas apresento como produto de reflexão .

 

        Há mais de vinte anos trabalhei, por curto período, num hospital público infantil. Como brincar com crianças não é meu forte e periodicamente havia reunião com as mães, perguntei se  poderia conversar isoladamente com estas mães. Há não muito tempo tinha saído de um processo de profundo sofrimento e através dele vi que poderia dar minha contribuição para amenizar dores alheias. Sei que se tivesse podido conversar com as mães ajudaria, nem que fosse a uma só, a encontrar soluções para problemas que tivessem enfrentando. Minha oferta de conversar com as mães foi recusada por eu não ser uma profissional de saúde. Tenho certeza que as mães saíram perdendo por não poderem ter alguém que se dispusesse a ouvi-las, talvez a orientar, ou ao menos ouvir palavras de algum consolo.

 

        São entraves burocráticos, como esse que impedem um auxílio. Voluntários, dispostos a dar o melhor de si, poderia ser uma luz neste túnel com tão fraca iluminação, buscando uma saída para melhorar a educação.

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