Educação e crianças de baixa renda.

 

        

        Moro no Morumbi, e estou cercada de escolas colocadas no ranking de melhores estabelecimentos de ensino. Uma delas é o Colégio Porto Seguro, geralmente colocada entre as 10 melhores. Não muito longe da minha casa também fica a favela Paraisópolis

 

        O colégio Porto Seguro, em suas instalações, fornece acesso aos mesmos laboratórios, professores, grade curricular, aulas de reforço, enfim tudo que seus alunos têm acesso, à exceção do aprendizado da língua alemã, a alunos da favela Paraisópolis. O dado estarrecedor é que as crianças provenientes da favela não têm o mesmo desempenho que os outros alunos do Colégio Porto Seguro, que desembolsam alta quantia, em troca de alta qualidade de ensino.

 

        Numa turma de 75 alunos do ensino médio, oriundos da favela de Paraisópolis, apenas uma dúzia entrou numa universidade e todas elas faculdades privadas. Essas mesmas crianças são assistidas pelo Hospital Albert Einstein, creio que o melhor do Brasil.

       

        Enquanto digeria esta informação, li que 30% do aprendizado de uma criança e adolescente viriam da sala de aula, e o restante ficava distribuída entre a escolaridade da família e o seu empenho na formação dos filhos, e a vivência cultural do indivíduo. Isto significa: acesso a livros, filmes, viagens, notícias.

       

 

        Não estava ainda recuperada do abalo que tal notícia me trouxe, quando recebo o e-mail da minha filha Patrícia, que nem é educadora, mas vem acompanhando minhas reflexões e este dizia o seguinte:

Cérebro de crianças pobres tende a ter desempenho pior, diz estudo

O cérebro de crianças pobres tende a ter um desempenho pior do que o de crianças ricas e parece ter sofrido danos, segundo estudo da Universidade da Califórnia em Berkeley que será publicado na revista especializada “Journal of Cognitive Neuroscience”.

 O estudo analisou eletroencefalogramas de 26 crianças entre nove e dez anos de idade, metade delas de famílias de baixa renda e a outra metade de famílias de renda alta, e concluiu que o córtex pré-frontal – a parte do cérebro que é crítica para a solução de problemas e criatividade – de crianças pobres apresenta menor atividade do que o de crianças ricas, diante dos mesmos estímulos

 “As crianças de nível sócio econômico mais baixo mostram padrões de fisiologia cerebral semelhantes aos de alguém que sofreu danos no lóbulo frontal já quando adulto”, diz Robert Knight, diretor do Instituto de Neurosciência Helen Wills, da universidade americana.

 

 Para Knight, a descoberta é um chamado. “Não se trata apenas de as crianças serem pobres e mais propensas a ter problemas de saúde, mas elas podem não estar desenvolvendo seus cérebros plenamente por causa de ambientes estressantes e relativamente empobrecidos associados à baixa renda: menos livros, menos leitura, menos jogos e menos visitas a museus.”

        Em suma, isto tudo significa que o pior desempenho ocorre por falta de estimulação. Uma das soluções encontradas pelo Colégio Porto Seguro foi oferecer para os pais dos alunos, cursos supletivos, tanto de ensino fundamental quanto de ensino médio. Isto significa, mais estímulo para os filhos.

        Minha irmã, que mora em Brasília e também não é educadora, e nem funcionária pública, auxiliou o filho de sua empregada da seguinte forma: o menino tinha baixas notas escolares e parecia estar indo pelo caminho do analfabetismo funcional. Ela passou a comprar livros e mandar para o menino, para que ele lesse, e depois contasse para a mãe o que tinha lido. Depois de comprar alguns exemplares eles começaram a pesar no bolso, então, minha irmã recorreu a amigas que davam a ela os livros que os filhos já tivessem lido. Assim, de livro em livro que o menino lia, suas notas foram melhorando e minha irmã acha que agora ele está com um bom desempenho escolar. Agora prepara-se para dar um computador ao menino, se é que já não o deu.

        O Colégio Porto Seguro encontrou uma forma de estimular as crianças provindas de famílias de baixa renda, minha irmã encontrou outro caminho. Esses dois exemplos são muito próximos de mim, mas deve haver muitos que desconheço e me dá esperanças que a pobreza, não seja determinante para a reprodução do estigma: pais não escolarizados, produzirão filhos não escolarizados.

Será isto uma utopia?

 

 

 

 

 

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