Túnel do tempo

 

 

        Depois da minha viagem no túnel do tempo, com a ida ao Bar Brahma, lembrei-me de algo daquela época, que não dá para acreditar que seja verdade, mas juro que é.

 

        Naquele ano precisei ir ao Rio de Janeiro, a trabalho. Não me lembro se naquela época tinha ponte aérea. O que me lembro com grande nitidez é entrar num carro, bem cedinho, com um outro passageiro a bordo. Este carro era da companhia aérea, que pegava os passageiros a domicílio! Deve ser difícil de acreditar, mas é verdade. Imagine se hoje em dia haveria esta possibilidade.

 

        Andar de avião naquela época era meio elitista e eu morava num bairro “popular”. Daí a minha surpresa quando vi o outro passageiro. Então, naquele bairro, tinha alguém que andava de avião, além de mim, obviamente.

 

        Morava no Brás, mais especificamente numa rua chamada Oriente.

 

        Minha mãe, muito novidadeira, tanto que mudávamos de casa de quatro em quatro anos, decidiu que deveríamos mudar para a rua Oriente porque meu pai tinha uma fábrica de lingerie lá e assim ficava fácil para ele ir almoçar em casa. Quando ela falou que íamos mudar para a rua Oriente eu pensei: mas lá não tem casas. Depois vi que havia casas sobre as lojas. É como se fossem apartamentos, num andar superior. Até que a casa era grande: tinha três quartos e mais uma saleta, que era um quarto de estudos, com uma estante de livros que tomava uma das paredes e dela a gente puxava uma madeira, que era a escrivaninha. Havia também um sofá e uma rádio vitrola. Era o aparelho de som daquela época, onde eu e meus irmãos ouvíamos os discos no mais alto volume. Lá eu recebia amigos, colegas e por vezes minha mãe aparecia com uma mesa- carrinho, repleto de guloseimas, para um lanchinho.

 

        Detestava morar naquela rua, repleta de confecções, especialmente malharias. Uma vez o dono de uma malharia me convidou para desfilar suas malhas. Achei o convite um insulto. Imagine, eu, estudante de Direito, desfilando malhas. Naquela época não se ouvia falar em modelos e até havia preconceito sobre tal atividade.

 

        Por falar em preconceitos, alguns eram absurdos. A atividade de vendas era considerada” menor”, pelo menos para os caras metidos a besta, categoria em que estava enquadrada.

 

        Quando entrei na Faculdade de Direito, comecei a dar aulas de inglês à noite. Não gostava de dar aulas e assim de vez em quando me candidatava para alguma vaga, em outro setor. Uma das vezes uma agência de colocação me mandou para a joalheria H. Stern, dizendo que precisavam uma recepcionista que falasse inglês. Lá o gerente disse que não precisavam de recepcionista, mas sim de uma vendedora. Recusei, pois não podia ser uma “vendedora”, como se fosse uma deusa do Olimpo.

 

        Hoje me lembro destes dois casos e vejo que era metida a besta mesmo. Freqüentei a H.Stern, na época em que se podia sair de jóias à rua e as vendedoras eram senhoras finíssimas. Se fosse convidada naquela época para integrar o quadro de profissionais, me sentiria toda orgulhosa.

 

        Também na história de desfile. Se fui convidada é porque era bonita e com corpo para envergar bem uma malha.

 

        Pelo menos, com relação a desfilar, consegui fazer aos quarenta e poucos anos. No clube que freqüentava havia uma boutique, e a dona me convidou para desfilar. Era um desfile de senhoras para senhoras. Na ocasião estava cursando jornalismo e uma colega modelo me ensinou como é aquela paradinha que as modelos dão, para voltarem.

 

        Daquela vez fiquei muito orgulhosa com o convite.

 

         Mas, voltando no túnel do tempo, que se iniciou com o carro da companhia aérea, pegando passageiros a domicílio, vi que andei desperdiçando oportunidades que hoje me trariam saudosas lembranças.