Creio ser este o mais hediondo dos crimes. Entretanto, parece que frente ao número cada vez maior desse crime, ele está se banalizando. Pelo menos é o que se deduz frente a veiculação de que,  em  pelo menos três decisões judiciais, desembargadores do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, reduziram a pena a que foram condenados réus acusados de pedofilia. (Folha de São Paulo, Cotidiano 1, 14/03/2009)

 

 

        Em 2006, um pedófilo, que tinha perpetrado tal crime contra quatro menores, duas de 9, uma de 10 e outra de 13 anos, teve a pena reduzida de 17 anos e seis meses para seis anos e três meses de prisão.

 

 

        Em 2005 a pena do acusado foi reduzida de 9 anos, para 2 anos. Entre outros pontos a sentença disse textualmente: o “dano psicológico da vítima não foi tão intenso, tão marcante que determinasse, repito, uma reprimenda perigosa”. Disse ainda que o “alarde” dos pais produziu mais danos à vítima do que os fatos.

 

 

         Há ainda outro julgamento, em 2008, reduzindo até 2/3 da pena, no caso de uma menina, violentada pelo próprio pai. A justificativa é de que como o ato carnal não tinha sido consumado, ocorrera apenas “tentativa”, porque tinha havido apenas toques.

 

 

 

        Outro dia, falando a propósito da excomunhão, no caso da menina de 9 anos, me vi falando: “a Igreja apóia a pedofilia”. Achei que tinha ido longe demais ao fazer tal afirmativa, mas eis que, em outro caderno do jornal(ilustrada), no mesmo dia, o médico Dráusio Varela assim se expressou: “Porque cobrar a excomunhão do padrasto estuprador, quando os católicos sempre silenciaram diante dos abusos sexuais contra meninos, perpetrados nos cantos das sacristias e dos colégios religiosos? Além da transferência para outras paróquias, qual a sanção aplicada contra os atos criminosos desses padres, que nós, ex- alunos de colégios católicos testemunhamos”.

 

 

        A Igreja sempre silenciou nestes casos e, conforme escreveu o pe. Antonio Vieira “a omissão é um crime que se faz não fazendo”.

 

        Não é intuito deste texto atacar a Igreja, mas o ataque foi na trilha  do comentário sobre o que parece ser a banalização de tão hediondo crime. Aliás, considero todos os crimes sexuais hediondos. No festejado livro “ O caçador de pipas” , Amir, o garoto rico, vê seu amigo Hassan, sendo estuprado e nada faz. Quando li esta cena fechei o livro e só fui reabri-lo seis meses depois.

 

        Quando advogava, fui procurada por uma senhora, que pretendia que eu entrasse com uma ação revisional no caso de seu marido, preso por estupro. Mandei que ela voltasse outro dia porque tinha que consultar os autos. Li o processo e fiquei enojada. Quando ela voltou ao escritório disse que não podia pegar o caso.

        Não me lembro de maiores detalhes, só da minha colega, dona do escritório, dizendo que o advogado não podia se recusar a fazer a defesa. Disse a ela que se tivesse duas filhas, como eu, não pegaria tal caso. Agora vejo que não foi só porque eu tenho filhas que aquela foi minha posição.

 

        Tais crimes são revoltantes e a pedofilia é um crime monstruoso, e assim também o são os membros do judiciário dos casos que citei acima. Não é possível que esta violência terrível possa vir a ser banalizada, como parece estar ocorrendo.

 

Será que vamos assistir a isso de braços cruzados?

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