Crônicas


                                                                   

 

 

  CASA DE CAMPO

 

       Muita gente gostaria de ter uma casa de campo, pelas mais variadas razões. Elis Regina queria uma para compor muitos rocks rurais. Eu nunca quis ter, mas já estive em uma, tão estilosa quanto à da imagem.

 

       Foi há muito tempo, quando filhos, netos e talvez alguns bisnetos se reuniram para comemorar o aniversário de oitenta  anos de minha avó. A comemoração foi na casa de campo de uma prima, lenda na família por sua beleza e seu casamento milionário. Guardei muito poucas recordações deste dia. Lembro-me de uma piscina grande, cheia de gente, deviam ser meus parentes, e minha prima, vestindo um maiô preto, que era muito chique naquela época. Lembro-me que meu marido e eu ficamos num quarto muito aconchegante, num desvão que acompanhava a arquitetura da casa. Fiquei até orgulhosa com o quarto que nos tinha sido reservado. Lembro-me também de uma cozinha muito grande, cheia de empregados, o que não poderia ser diferente, pois o número de convidados era também muito grande. Quando minha avó fez oitenta anos estive numa casa de campo, muito bonita, de uma prima socialite. Isto é tudo de que me lembro.

 

 

       Aquela casa de campo não significou nada para mim.       Entretanto, outra casa no campo, deixou em mim e em todos os outros que a freqüentaram, recordações maravilhosas e até me atrevo a dizer, mágicas. Era a casa no sítio de meu tio José João e minha tia Esther, de meigos olhos azuis, chamada pelos sobrinhos de Tetéia. Meus primos iam para lá com seus filhos, bem como meus irmãos com os seus.

       Tudo era rústico naquele mundo encantado. A casa, grande, com suas janelonas imensas, embora sendo muito mal distribuída, transpirava aconchego. Na sala de jantar, de grande dimensão, havia uma outra mesa que nunca estava vazia, sempre cobertas de quitutes que pareciam um manjar dos deuses. A balança e os rostos redondos denunciavam a fartura e a comilança de uma temporada passada no sítio. Creio que quando pequena não sentia tanto a mágica daquele sítio encantado. As vezes em que fui para lá quando adulta e principalmente depois de casada, levando meus filhos, é que me dei conta da atmosfera de encanto que por lá se fazia presente. De uma forma ou de outra quem lá esteve expressa o que sentia. Minha irmã, ao levar seu filho de oito ou dez anos, enquanto andava pelo sítio, disse a ele que aquela terra, onde pisava, a conhecia. Traduziu em palavras a atmosfera mágica que cada um a seu modo sentia.

 

 

       Lá não havia luz elétrica. Na hora do jantar era ligado um lampião a querosene que iluminava a mesa suficientemente. Nos quartos a iluminação era à vela e em época de pernilongos ficava acesa a noite inteira, a cobra, uma espiral verde que queimava e ia se transformando em cinza. Meus primos da cidade pareciam não acreditar quando dizia que não havia iluminação elétrica e invariavelmente perguntavam como é que a geladeira funcionava. O fato é que não havia geladeira. Tudo era feito na hora e acho que minha tia tinha tamanha noção de quantidade a ser feita que nunca sobrava nada, e olha que a fartura era enorme.

       Uma ocasião meu tio recebeu uma herança e mandou instalar um gerador. Algum tempo depois minha tia comentou que tinha passado praticamente a vida toda sem luz elétrica, mas depois que passou a tê-la sentia uma falta enorme quando por algum motivo ela faltava.

       Não havia também rede de água. Toda ela vinha de um poço que precisava de alguns rituais de ligar a bomba e provavelmente também desligá-la. Isto não lembro com clareza. A água que bebíamos ficava numa talha, que naquela época até algumas casas na cidade tinham. Era de argila porosa que parece ter a propriedade de esterilizar a água. O fogão era a lenha e somente depois do advento da luz foi comprado um, a gás, mas o de lenha nunca foi abandonado.

        À noite, numa mesa da cozinha, escolhíamos o arroz e o feijão para o dia seguinte. Para mim era um grande barato o exercício de tal atividade. Era distribuída para cada participante da mesa uma quantidade, ora de arroz, ora de feijão. Os dois eram em grande quantidade, pois os hóspedes eram sempre numerosos. A iluminação era através de um lampião um pouco menor do que o da sala de jantar.

 

 

 

       Quando comecei a freqüentar o sítio lá era plantada laranja. Houve época em que o plantio era de café, tanto que havia um terreiro enorme, apropriado para a secagem do café e nós, urbanos, dizíamos que bom seria se ali fosse uma piscina. Na época em que era plantado café meu tio tinha vários colonos, a julgar pelo número de casas destinadas a eles, mas quando passou a plantar laranja havia somente dois colonos, apenas uma das casas era habitada.  Era onde moravam o Joaquim e a Joaquina. O primeiro trabalhava na lavoura e a segunda trabalhava na casa. Fazia os serviços domésticos muito vagarosamente, mas, pelo menos quando estávamos lá, arrumava cozinhas imensas. Lavava roupa, passava, num ferro pesadíssimo aquecido com carvão. As roupas que lavava, se brancas, até doíam a vista, tal a alvura. Só soube apreciar isto depois que fiquei dona de casa. Aprendi com ela a quarar a roupa, que consiste no processo de colocar a roupa branca, ensaboada, exposta ao sol, umedecê-la de vez enquanto, e a roupa ficava branquinha, branquinha. Quando tinha em casa alguma peça encardida levava para a Joaquina e ela a transformava. O varal era feito de arame, até lá ainda não tinham chegado os fios de náilon. Era enorme, com o arame preso em bambus fincados na terra. As roupas eram presas lá e ficavam balançando ao vento. 

 

 

 

       Elis Regina queria em sua casa de campo carneiros e cabras pastando solenes no seu jardim. Nesta casa no campo só havia galinhas. Elas viviam soltas, pelo espaço enorme, como era tudo por lá, e para dar o milho para elas emitíamos um som, que eu procurava imitar ao de minha tia, e apareciam as galinhas mais afoitas. As outras apareciam em seguida, atraídas pela distribuição do grão, e nós jogávamos o milho aos montes, até as galinhas começarem a debandar. Algumas vezes transformei a espiga em milho. O processo era o seguinte: a gente tirava a palha e depois colocava a espiga numa máquina que lembrava um pouco as de moer carne que se usava em casa. Feito isso o milho se soltava da espiga e caía numa bacia. Isto a gente fazia num paiol imenso que havia lá. Era outro barato, além da escolha do arroz e do feijão.

 

 

       No sítio também tinha uma cachoeira, onde me diverti muito quando criança, mas do que mais me recordo é que passada a cachoeira havia a porteira de entrada no sítio. Quando o jipe do meu tio passava, quem estava ao seu lado, era encarregado de descer e abrir a porteira. Estranhava um pouco isso porque na minha casa, quem estivesse na direção, descia e abria o portão da garagem, mas meu tio não era figurinha fácil. Passada esta primeira porteira andávamos mais um pouco, até uma segunda, quando então começavam os domínios da casa. Espalhados por todo o terreno havia um número grande de árvores e flores silvestres.

       Houve uma ocasião, casada e com três filhos, que estava muito estressada e fui ao sítio, sem eles, para me recuperar. Vejo até hoje, o que ficou indelevelmente marcado em minhas lembranças, quando passava grande parte do dia em meu quarto, lendo, por horas a fio. Ao levantar meus olhos do livro, via as folhas de uma árvore balançando ao vento e aquilo fascinava meu olhar. Era um misto de beleza e paz.

       Elis Regina queria na sua casa de campo o silêncio das línguas cansadas e naquela casa no campo o balançar das folhas, trazia também o silêncio que minha mente cansada pedia.

 

 

       Escrevendo esta crônica, minhas recordações voam para ocasiões diferentes. Da árvore cujas folhas balançavam ao vento elas pousaram em outra, de ramagens imensas, quase tocando o chão, e vejo minhas filhas brincando de casinha sob esta árvore.

        Lembrei-me da poesia de Casimiro de Abreu:

 

                 Meus oito anos.

 

             Oh! Que saudades que tenho

             Da aurora da minha vida,

             Da minha infância querida

             Que os anos não trazem mais,

             Que amor, que sonhos, que flores,

             Naquelas tardes fagueiras,

             À sombra das bananeiras,

             Debaixo dos laranjais.

 

Minhas filhas, muito pequenas, não brincavam à sombra de bananeiras, nem debaixo dos laranjais. Elas, hoje mamães, nunca souberam que montavam suas casinhas, sob um salgueiro-chorão, num sítio, que era encantado.

 

 

Hoje ele não existe mais.

 

 

 

                   

musica

 

A música

 

       Acho que Deus já fez um mundo musical. Nas pouquíssimas vezes em que tive insônia, notei que quando os passarinhos começavam a cantar era porque a manhã se aproximava. O seu piar é de uma sonoridade alegre, como se alguém já iniciasse o dia cantando, porque estava muito feliz. A única coisa que sei sobre o canto dos pássaros é que eles alegram a vida, mas ornitólogos se deram ao trabalho de gravarem o canto deles e um deles já gravou 4 CDs com o canto de 276 espécies. Imagine que festival de alegria. Os próprios pássaros sabem quem canta melhor. Este “campeonato” ocorre em duas ocasiões. No canto amoroso eles cantam para conquistar as fêmeas, cada vez mais e com mais beleza. Elas avaliam e escolhem os que cantam melhor.

 

       Além do canto amoroso, a beleza da música também está presente no canto chamado territorializante que se destina a marcar território. São mais bonitos que os cantos de amor. Os pássaros estabelecem uma espécie de torneio: cantam, e se um pássaro entender que o canto do outro é melhor ele sai. Aquele que cantar com mais beleza fica com o território e ali faz seu ninho.

       Parece mentira, mas, eu não estou inventando, isto é resultado de pesquisa de ornitólogos.

 

       Os pássaros cantam e os pombos e rolas arulham. Isto é também o que fazem os namorados quando em momentos de ternura, dizendo palavras doces, amorosas.

       Enfim, a música, é sempre a manifestação de um doce sentimento. 

 

 

       Em outras crônicas, quando queria citar algo muito, muito antigo, eu me valia de citações bíblicas, em especial do Gênesis. Hoje volto a citar um relato bíblico dado que os instrumentos musicais têm acompanhado a humanidade desde os tempos mais antigos. O primeiro relato bíblico confirmando isto encontra-se no livro do Gênesis 4.21: “ O nome de seu irmão era Jubal; este foi o pai de todos que tocam harpa e flauta”.

Agora vamos de darwinismo

 

 

 

 

Flauta

flauta 

 

 

 

 

       A flauta é o primeiro instrumento da humanidade, existente em todas as culturas primitivas. Em pinturas rupestres (as feitas em cavernas), que datam de 60000

 anos A.C., foram descobertos desenhos de flautas e apitos. Provavelmente foi sempre muito utilizado pela sua facilidade de construção, sendo da família das madeiras. O homem neolítico, com intenção de imitar o som dos pássaros, produziu este instrumento de sopro confeccionando com bambus perfurados.

 

Harpa

 harpa

 

 

 

 

 

 

       A harpa, juntamente com a flauta também é um dos instrumentos mais antigos. Teria se originado dos arcos de caça que faziam barulho ao roçarem na corda. A harpa é sempre triangular, lembrando um arco de caça. Tem-se conhecimento, através de fábulas épicas, poesias e trabalhos de arte que as harpas existiam séculos antes de Cristo, na Babilônia e na Mesopotâmia. Foram encontrados desenhos de harpas na tumba do Faraó egípcio, Ramsés II, (1198-1166 A.C.) e também na Grécia Antiga.

 

 

 

 

Liras

 instrumentos-antigos

 

 

 

 

 

 

       A lira também é dos mais antigos instrumentos. A imagem acima mostra algumas liras bem antigas. Elas são gregas, celtas , egípcias e outras. Diz a mitologia grega que Apolo foi seu inventor e ele é conhecido como o protetor das artes, da música e da inspiração poética. Talvez seja por isso que as palavras lírico, lirismo vêm do uso desse instrumento.

 

 

        Não sei se é lenda, mas, Nero fez desse instrumento  um uso pouco nobre, para dizer o menos. Dizem que placidamente tocava lira enquanto Roma ardia em fogo.

 

       Bem, depois de falar dos instrumentos que acompanham a humanidade desde os seus primórdios, quero falar da música como emoção.

 

       A última crônica que escrevi falava sobre as flores, sua beleza adornando nossa vida, nosso mundo, enchendo nossos olhos de luz. Outro dia, ao ouvir uma música a achei belíssima e ela me proporcionava uma emoção tão grande que cheguei a ficar arrepiada. Nesta hora senti a diferença entre as flores e a música. Ambas trazem beleza a nossa vida, mas, a música a transcende. Ninguém diz ter ficado emocionado ao ver flores, mas sente algo diverso ao ouvir uma música que por algum motivo o toca. Tive uma experiência dessa há poucos meses, quando estava em Veneza. Em frente a um café, uma pequena orquestra tocava a música Night and Day. Ao ouvi-la, principalmente sob os acordes de um violino, derramei umas lágrimas de pura emoção. Talvez, naquela ocasião, o ambiente  também estivesse influindo nos meus sentimentos, mas de qualquer forma a música exacerbou minha emoção.

 

       Não importa se a música é sertaneja, clássica ou  popular. No meu último ano de jornalismo nosso trabalho de conclusão de curso foi numa cidade do interior, onde trabalhamos as diversas mídias. Trabalhei com rádio e para isto, para um dos trabalhos, utilizei-me de um disco (de vinil) sertanejo que tinha em casa. A cidade era extremamente pacata. Não saiu à rua nem para ver aquela “tribo” que tinha invadido absolutamente sem cerimônia o espaço deles. Mas, quando os clássicos sertanejos, foram ao ar, invadindo o silêncio da  tranquila cidadezinha, seus moradores começaram a sair de suas casas. Foi a única vez em que se manifestaram. Assim é a música, seu estilo é universal. Há para todos os gostos e todas as emoções.

 

Concerto sinfônico

 concerto-musical

 

 

 

 

  

 

       Sempre achei que para apreciar música clássica era necessária educação musical, mas trabalhos que têm se desenvolvido em periferias, com crianças carentes de tudo, são, literalmente, de arrepiar. Ver as crianças executando peças sinfônicas, com uma maestria e beleza como se tivessem nascido num ambiente onde a execução de tais peças fizesse parte do dia a dia, é arrebatador. Concertos de música erudita, embora em raríssimas ocasiões, têm como palco espaços campais. Neles, não eruditos misturam-se àqueles em que a educação musical se fez presente e, portanto, aprenderam a amar a música clássica.

       Quando há esses concertos a mídia está sempre presente. É comovente ouvir com que arrebatamento pessoas carentes dão seus depoimentos. A música os comoveu, por sua beleza foram levados, embora aquela tenha sido a única ocasião em que ouviram música erudita.

 

       Talvez pareça um contraponto insólito falar em música clássica, logo depois de falar sobre a sertaneja. Ocorre, entretanto, que só estou falando de música, como fonte de emoções, e elas não fazem distinção entre os gêneros musicais diversos.

 

 

A música dita popular abriga tantas correntes, tantos gostos diferentes que é possível encontrar, numa mesma casa, o marido que odeia e a mulher que adora, por exemplo, a bossa nova, que neste ano está completando cinqüenta anos.

   Eu confesso que a adoro, mas, não venham me falar de algumas outras, que não vou mencionar, pois, Por exemplo, o rock para mim não diz nada, mas Elvis Presley faleceu em 1977, portanto, há 31 anos e ainda tem uma imensa legião de fãs.

 

 

       A música pode levar ao êxtase, e também a um delírio coletivo, como por vezes é provocada quando da apresentação de alguns grupos musicais. O público, acompanha seus ídolos dançando, cantando, pulando por horas a fio, sem se importar se chove ou faz um calor escaldante, se está no meio da platéia ou num camarote. Tudo é demonstração da emoção que cada um sente naquele momento,e nada  a faz aflorar com ímpeto maior do que a música.

 

 

       Antes eram três, agora quatro, e em algumas cidades dura, às vezes, mais do que uma semana,o grande delírio de multidões, a grande paixão brasileira: o carnaval, canto, dança, sempre com a música como pano de fundo.

Ópera

 opera

 

 

 

 

 

 

       Deixei para o final falar de ópera porque ela me traz grandes alegrias e ao mesmo tempo uma dor imensa.

 

 

       Quando era pequena e mais tarde quando adolescente, meu pai me levava ao Teatro Municipal com certa freqüência. Ia com ele ouvir concertos sinfônicos, ver apresentações de ballet clássico e assitir óperas. Tenho algumas lembranças de meu comportamento como quando uma vez falei com vozinha infantil:”que música feia papai” e dele ouvi:”psiu, são os músicos afinando os instrumentos”. Outra recordação bastante forte é quando assisti ao extraordinário bailarino Nureiev. Naquela idade não conhecia ainda os códigos dos aplausos, entretanto, levantei-me e me pus a aplaudir vigorosamente, tão fascinada fiquei.

       As duas óperas que mais me marcaram foram Aída e Madame Buterfly. Da ópera Aída lembro-me como marcante o coro que demonstrava o júbilo de uma nação vitoriosa na guerra. Quanto à Madame Buterfly, meu Deus, que recordações de beleza e muito dor.

 

       Quando meu pai faleceu, há quase trinta anos, entrei numa profunda depressão, que se arrastou num tratamento por quase dois anos. Tive picos diferentes na doença e numa ocasião, a lembrança da ópera desencadeou um processo de dor e descobertas.

 

       Tudo começou quando meu filho, que na ocasião tinha nove anos, me perguntou se achava bonita uma determinada música. Respondi que era linda mas muito triste. Muitas horas depois lembrei-me da minha resposta e me questionei: como algo pode ser belo e triste ao mesmo tempo?  Naquele instante lembrei-me do meu pai e da ópera Madame Buterfly.  A vi com nitidez, entoando uma belíssima ária, quando estava próxima de matar-se, por julgar ter perdido o homem amado. Naquela hora ela se despedia da vida, mas no seu canto havia simultaneamente grande beleza e muita dor.  Depois desse flash back tudo  se clareou em minha mente.

      

       Foi através do meu pai que conheci o Belo que se manifestava nas artes, foi com ele que aprendi amar os livros, os estudos. Fora ele quem me introduzira nesse mundo onde tudo é beleza. Com sua partida, aquele mundo também se fora, ficando apenas o mundo das lutas cotidianas, do sem fim de projetos a serem perseguidos, o mundo de muitos sonhos e esperanças a serem realizadas ou não.

 

       Entendi porque tanto sofri com sua partida, embora a dor não tivesse me abandonado. Tantos anos passados e agora convivo com os dois mundos: o do Belo e o da Luta, e a ária cantada tão pungentemente unindo a dor e a beleza, permaneceu na minha memória, mas da partida do meu pai houve só dor e tristeza.

 

 

 

        

 

      

 

 

      

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As Flores

 

 

            Costumo ter, via de regra, como fonte de inspiração do tema das minhas crônicas, algo que me passa pela cabeça em um dado momento. Foi assim com a primeira crônica, “Chuva”, quando cantarolava a música, e, também, em idêntica situação, quando escrevi “Casa de Campo”. Desta vez o tema da crônica surgiu depois de conjecturas sobre o golpe militar de 1964. Possivelmente, porque se voltou a discutir a punição de “torturadores” , estes ligados ao negro período da ditadura militar.

 

 

       Tomei conhecimento do golpe quando estava em um ônibus, voltando da Ford, em São Caetano, onde dava aula de português para um executivo americano. Só ouvi a voz de um rapaz falando: mas porque ele não vai à rádio (este era o meio de comunicação mais rápido, naquela época), e a resposta: se ele for vão prendê-lo. Foi tudo muito silencioso, completamente inesperado. É bem verdade que naquela época não era muito politizada, tenho que admitir, com alguma vergonha, mas a maioria dos brasileiros também não o era. Simplesmente da noite para o dia ficamos sob uma ditadura militar, repressora e onipresente na sua sanha de censurar e punir, culpados e inocentes.

      

       Em 1968, sob o governo Costa e Silva foi promulgado o AI-5 que desencadeou um período de horrores. O que sempre me causou espanto é que ele foi apresentado pelo ministro da Justiça Gama e Silva. Eu o conheci pessoalmente, como meu professor na Faculdade de Direito, e jamais imaginei que esta pessoa fosse um dia pactuar com as barbaridades e atrocidades que se seguiram. O Big Brother, desta vez falando do livro 1984, de George Orwell, estendia seus tentáculos de forma onipresente. Nada escapava à censura.

 

       Neste ano o compositor poeta Geraldo Vandré apresentou em um festival a lindíssima música “Pra não dizer que não falei de flores”, que também é conhecida como “Caminhando”, repleta de metáforas, numa alusão ao período que passávamos. Não posso deixar de registrar aqui um dos versos da música:

                                  

                                   Pelos campos há fome

                    Em grandes plantações

                    Pelas ruas marchando

                    Indecisos cordões

                    Ainda fazem da flor

                    Seu mais forte refrão

                    E acreditam nas flores

                    Vencendo o canhão……

 

 

       E foi assim, pensando na música “Pra não dizer que não falei de flores” que resolvi usar o tema  As Flores,  como objeto desta crônica.

       Enquanto maturava a idéia vi que podia falar delas não só por inundarem toda nossa vida, encher nossos olhos de beleza, contribuírem para tornar o mundo mais bonito, mas, também sob outro viés.

       As flores também podem estar inseridas em movimentos sócios – políticos, na economia, nos esportes e até num Evangelho. Na saúde elas também ocupam espaço, pois, estudos falam do bem estar trazido ao paciente em um ambiente com flores.

 

 

       O meu primeiro exemplo da inserção das flores na política é a música de Geraldo Vandré que, apresentada no Festival Internacional da Cultura, há 40 anos completados no dia  29 de setembro de l968, teve o resultado manipulado, com toda certeza, pelo Big Brother onipresente. A canção vitoriosa foi uma música, também linda, da autoria de Jobim e do também compositor poeta Chico Buarque de Holanda. O público não se conformou com o resultado e este foi vaiado por 15 mil pessoas no Maracanãzinho.  A música de Vandré, lindíssima e engajada  “Pra não dizer que não falei de flores” recebeu o 2º lugar, mas logo foi censurada.

       Em 1980 tive notícias de que o compositor tinha enlouquecido por conta das torturas que sofreu. Se você procurar seu paradeiro no Google, vai encontrar também esta informação, entre outras, que inclusive dizem que o compositor nega ter sofrido torturas. Quem viveu aquele período negro da nossa ditadura militar, com toda certeza, não vai acreditar nessa declaração.

 

 

       Bem, falei do uso de flores, num movimento sócio político no Brasil há não muito tempo, mas não podemos nos esquecer da Revolução dos cravos, em Portugal, o movimento que derrubou o regime salazarista em 1974. Com a deposição de Marcelo Caetano, que substituiu Salazar que tinha sofrido um AVC, a população saiu às ruas para comemorar o fim da ditadura e distribuiu cravos, a flor nacional, aos soldados rebeldes, sob forma de agradecimento.

 

       Há não muito tempo houve protestos no mundo inteiro contra a guerra do Iraque. Participaram países como Paquistão, Síria, Egito, Rússia, França, Grã Bretanha, Argentina, México, Japão e também no Brasil houve manifestações. Os manifestantes no Japão usaram cartazes e flores colocadas no cano de armas.

             

       Voltando há alguns séculos atrás, entre os anos de 1453 e 1485 houve a guerra das rosas, envolvendo duas famílias nobres, pela conquista do poder inglês. O nome guerra das rosas teve origem no fato de a família real trazer no seu brazão  uma rosa vermelha e a de York uma rosa branca.

 

Lancaster

 

 

York

 

       Em nome do protocolo, nas relações político diplomáticas, não há uma vez sequer que os governantes, em visita ao país anfitrião, deixem de depositar uma grinalda de flores, no monumento erigido como homenagem ao soldado desconhecido.

        

 

       Saindo do campo dos movimentos sócios políticos, temos que visitar a presença das flores na economia.

       Estamos agora vivendo uma grave crise econômica dos EUA em conseqüência da “bolha imobiliária”. Antes eles tiveram a “bolha” da Internet.

 

       Não é que a Holanda, no século XVII teve também sua “bolha”, e tulipas deixaram Amsterdam à beira da bancarrota? Pois é, um arranjo de tulipas custa cerca de R$30,00, mas, na Holanda do século XVII, para comprar um só bulbo da flor era necessário dispor de 24 toneladas de trigo. Tamanha valorização fez os produtores fecharem contratos futuros informalmente. A cada ano o preço das tulipas se inflacionavam e alcançavam valores exorbitantes.

Em 1637 a “bolha” estourou. Os negociantes começaram a vender os contratos e o mercado fictício desapareceu, assim como evaporaram as propriedades e tudo o que os holandeses empenharam na tulipa mania. Assim como o governo americano já torrou U$1 trilhão para aliviar a crise (e deve gastar em breve outros bilhões) o governo holandês teve de intervir. Os contratos podres eram comprados por 10% do seu valor. Estas informações obtive  no Uol em 21/09/2008.

 

       Ainda falando em flores e economia, temos a Colômbia como o maior exportador de rosas. Pois é, eles também exportam beleza. A Colômbia em 35 anos de atividade no setor tornou-se o 2º exportador de flores em geral do mundo, atrás apenas da Holanda. Aliás, as tulipas são uma outra história. Pode-se até dizer que é um símbolo do país. Vi uma tulipa ao vivo e a cores pela primeira vez em Nova York, na chiqueterrima 5ª Avenida. Tinha que ser lá. Hoje, elas bateram as orquídeas que até há alguns anos atrás eram o símbolo do bom gosto. Ditam as regras da etiqueta que quando se é convidado para um jantar, deve-se levar flores para a anfitriã. As caixinhas com orquídea eram disparadas as preferidas, para presentear aquela que nos recepcionava. Será que ainda são?

 

 

Na olimpíada de Pequim, neste ano, notei que os atletas, que subiam ao pódio, recebiam flores, além de medalhas.                           

          Desta vez são as flores ligadas ao esporte.

      

 

       Agora que já falei de flores ligadas à movimentos políticos, à economia, à saúde e ao esporte, resta falar de sua inserção num Evangelho. Mateus em 6.28 e 29 deixou registrado o tão conhecido:

 

       Olhai os lírios do campo, eles crescem, não trabalham e nem fiam, e eu vos digo que nem mesmo Salomão, com toda sua glória, se vestiu como um deles.

 

        Mas, flores se inserem em todos aqueles campos, pois  na realidade, inundam nossa vida do nascimento aos derradeiros momentos.

 

       Na maternidade, a mamãe que acabou de fazer vir ao mundo um bebezinho, recebe flores de muitos que a visitam. Antes ela já tinha recebido muitas flores no decorrer de sua vida. Já recebeu como galanteio, como homenagem pelo seu aniversário, e elas já estiveram presentes no dia que considerara o mais emocionante de sua vida.

 

       Naquele dia havia uma profusão de flores. Elas embelezavam o lugar da cerimônia, faziam-se presentes  no bouquet da noiva, que, se  de rosas, seriam colombianas.  Ao som de uma emocionante marcha nupcial ela, nesse dia, une-se a quem ama, esperando, já que não há mais príncipes e princesas de contos de fadas, a vaticinar que o casal será feliz para sempre, que o amor seja eterno enquanto dure.

       Outras uniões podem não ter tido o mesmo glamour, mas os anseios são os mesmos e a vida em nada diferirá.

       Ao longo dos anos muitas flores serão dadas para comemorar aniversários, datas especiais, e até mesmo, quem sabe, uma caixinha com uma rosa, quando  houve algum fato tristonho, acompanhada de um cartãozinho dizendo: “na vida é preciso que haja momentos tristes, para que os de felicidade sejam ressaltados”.

       As flores também se fazem presentes em casa, num arranjo, nos jardins, que a cada estação faz espécies diferentes brotarem. Sempre embelezando os olhos, enchendo o mundo de cores até mesmo quando algumas nuvens cinza pairam no cotidiano por vezes tão difícil de parecer colorido.

 

       As flores também são uma homenagem que se presta para aquele que se foi.  Uma das homenagens mais fortes, nos últimos anos, foi a dos britânicos, que inundaram as ruas de flores, em frente ao palácio de Buckinghan, na despedida da princesa tão amada pelo povo.

 

       Alguém se vai, mas, logo um bebezinho dá o seu primeiro choro, celebrando a vida e o ciclo das flores.

 

       Houve uma época em que a minha alma só via em branco e preto. Na época escrevia poesias densas sem que um arco íris fosse vislumbrado. Assim mesmo, naquele mundo sem cor, eu muitas vezes sorri para uma árvore no meu jardim, de flores pétalas vermelhas, que no inverno frio parecia aquecer minha alma.

       Agora é primavera e eu estou aqui, cercada de cores e flores, nas ruas, em casa, em qualquer lugar, numa celebração à vida, que é o que fazem as flores.

      

 

 

O colesterol

(publicado originalmente em 24/09/2008)

 

    Pois é, uma rede mundial de lanchonetes teve que fechar muitas de suas portas, porque um inocente cheeseburguer com batatas fritas e os outros burguers comercializados nesta rede se tornaram um grande vilão; mais um pouco e a rede se tornaria o inimigo público número um. Tudo em nome da santa cruzada contra o colesterol.

 

 

 

      Que saudades do tempo em que se podia comer à vontade, frituras, queijos gordurosos, um belo bife a parmegiana, ovos e batatas fritas, bacon, linguiça, e muitos, muitos outros quitutes; isto sem falar das deliciosas sobremesas, e dos sorvetes regados a chantily e cremes de dar água na boca, sem complexo de culpa.

    Até algumas décadas atrás, nem tantas, aliás, éramos felizes e nem sabíamos. Hoje estamos todos conscientes que para termos uma vida saudável, é imprescindível proteger o coração dos males do colesterol. Deve-se ainda cuidar do

 

não só evitando o mau , como ainda, abastecê-lo com o bom colesterol, o que nos obriga a ficar antenados e revirarmos as gôndolas dos supermercados atrás de produtos estampados com um atraente LIGHT. Também é preciso decodificar as informações nutricionais e ficar bem esperto para não levar nenhum alimento que contenha GORDURA TRANS, este que parece ser um mal sem concorrente.

 

Quando era adolescente uma vez uma amiga e eu fizemos uma maratona gastronômica. Começamos num restaurante no largo do Arouche, chamado O Gato Que Ri, que diziam ter a melhor lasanha de São Paulo. Comemos sem deixar vestígios no prato. Saímos de lá e fomos a uma sorveteria na praça da República onde devoramos uma banana split. Ainda não satisfeitas fomos a uma padaria chamada Santa Theresa, na praça João Mendes, e comemos um doce recheado de creme e coberto de chocolate. Acho que naquele almoço consumimos umas 5.000 calorias. Entre parênteses tenho que dizer que àquela época tinha 1.60 de altura e 67 Kgs. de peso. Hoje tenho menos que 50kgs.

 

    Naquela época o que contava era a nossa aparência. Nem se falava em colesterol, mas se já houvesse esta preocupação, imagine em que altura estaria o meu. O complexo de culpa depois de tais maratonas, só se manifestava durante a semana, quando então morria de fome para não virar uma obesa. Durante a semana, seguindo a recomendação dos médicos que atendiam as gordinhas, eu me alimentava de muita salada, verduras de folhas, vegetais, franguinho grelhado e por aí. Agora, nesta época de preocupação com colesterol esta minha alimentação era dez, a que se deve ter, porém se eu tinha ou não uma alta taxa daquele grande vilão, não sei, mas saúde eu tinha para dar e vender.

 

 

    O que parece confirmar esta minha afirmação quanto a minha saudabilidade é o fato de que, lá pelos anos de 1956, não sei precisamente, tivemos no Brasil uma epidemia de gripe chamada asiática. Estava fazendo o colegial, hoje ensino médio. Fui para a escola porque tinha prova de latim. Quando terminei disse para a professora que tinha que ir embora, pois, tinha que arrumar a cozinha do almoço. Todos em casa estavam acamados, inclusive a empregada, por conta da gripe asiática. Só eu permanecia em pé, firme e forte. Lembro-me de ter estudado com o caderno aberto, sobre as duas torneiras da pia. Acho que o que falei sobre a minha saudabilidade bate um pouco com uma matéria que li , com 2 estudos publicados em agosto de 2008 em Archives of Internacional Medicine: ”Obesidade nem sempre faz mal a saúde”. Eu não era obesa mas tinha um belo sobrepeso e duvido que se tivesse continuado naquela toada, hoje estaria aqui toda lépida e faceira, divertindo-me a escrever crônicas. Antes de continuar preciso registrar que as tais pesquisas tiveram seus dados coletados entre l999 e 2004, mas tem outro dado: “a cientista afirma que são necessários novos estudos”. A tal pesquisa de certa forma se declara inconclusiva, mas o combate ao colesterol não é inconclusivo e, portanto, livremo-nos dele.

 

 

    Felizmente outros estudos decretaram que a cozinha mediterrânea é a ideal para manter-nos longevos e com baixa taxa de colesterol. Um dos grandes auxiliares é o consumo de azeite de oliva e a ingestão de cerca de duas doses de vinho diariamente.

 

 

    Falando de azeite de oliva e, portanto, de oliveiras, lembrei-me da disputa entre Poseidon e Palas Atena, deuses da Grécia Antiga, como nos conta a mitologia grega. Ambos disputavam o patronato de uma cidade importante. Assim, acertaram entre eles que seria o vencedor da disputa aquele que desse o melhor presente para a cidade. Poseidon ofereceu um cavalo e Palas Atena, oferecendo uma oliveira, acabou por sagrar-se vencedora, e até por isso Atenas leva o nome da deusa.

    Ora, numa época em que nem mesmo um patinete era conhecido, para ser utilizado como auxiliar de locomoção, a muitos pareceu estranho que uma oliveira fosse considerada mais importante do que um cavalo. Ocorre que a oferta da oliveira foi da deusa da sabedoria e, portanto, ela sabia das coisas. Hoje, que temos até aviões supersônicos, o cavalo anda sem as nobres funções da Antiguidade. Poseidon, rei dos mares, não tinha a sabedoria de sua rival que deve ter até antevisto o futuro. Hoje, século XXI, a Grécia é o segundo maior exportador de azeitonas, atrás apenas da Espanha. Assim, vivas a sabedoria de Atena e sua oliveira que fizeram com que o produto corresponda a quase 35% das exportações da Grécia.

 

 

  Podemos acrescentar ao assunto oliveira o grande imperador romano, Adriano. Ele também é bastante antigo. Nasceu em 76 D.C. e neste ano de 2008, e é objeto de uma mega exposição no British Museum. O grande imperador foi descendente de uma família de comerciantes de azeite, em uma região que hoje é o sul da Espanha. É a oliveira presente na Espanha, que é o maior exportador dos frutos da árvore que a deusa da sabedoria ofertou à cidade que hoje leva seu nome.    

    Nosso corpo pode não conhecer estas histórias, mas, decretou que o azeite de oliva é bom para este arrasa quarteirões chamado colesterol. Vejam só: a deusa da sabedoria da Grécia Antiga deixou um presente, para que, até os homens que já chegaram à lua, mantenham-se longevos e saudáveis.

Não podemos nos esquecer que também faz muito bem ao coração, tomar duas taças de vinho diariamente.

 

    Se falamos do passado do azeite, do vinho então, podemos voar anos luz. Imagine que ele é mencionado no Velho Testamento, justamente junto a Noé, a quem devemos nossa existência. Não fora por ele a Terra teria sido dizimada e não haveria nem eu, nem você, nem ele ou nem ela.

   O capítulo IX do Gênesis disse que Noé, depois de retirar os animais:

Versículo 20: E começou Noé a ser lavrador da terra, e plantou uma vinha.

Versículo 21: E bebeu do vinho, e embebedou-se…..

 

Bem, os preceitos atuais, recomendam apenas duas taças de vinho diárias. Não se esqueça também:

 

Se beber não dirija

 

    Faça também sua, a global campanha: elimine de sua vida tudo que possa produzir o mau colesterol e abasteça seu coração de bom colesterol. Não é todo mundo que tem tão ilustres companheiros como a deusa Atena, o imperador Adriano e o bom e velhinho Noé, nesta cruzada dos tempos contemporâneos.

    Acho que devo ainda registrar que o bom Noé, que plantou a vinha, segundo o versículo 29 :

“E foram todos os dias de Noé novecentos e cinquenta anos e morreu”.

Não precisamos ir tão longe, mas é muito boa a longevidade saudável. Livrar-se do colesterol é um passo muito importante. Tenho dito.

 

 

 

 

Minha tia Laura

 

 

       Minha nora, depois de ler a crônica sobre o meu sítio encantado, disse que embora não o tivesse conhecido, ela também tinha tido o seu sítio mágico . A partir daí comecei a pensar no assunto e vi que muitas outras pessoas, talvez também tivessem tido um sítio que pudessem chamar de encantado.

 

       Tinha vontade de escrever sobre minha tia Laura, mas, relutava, porque parecia ser uma recordação só minha. Assim sendo, deveria ficar encerrada no meu baú de lembranças. Entretanto, depois do comentário de minha nora vi que podia tranquilamente escrever sobre a minha tia, porque talvez muitos também tivessem sua tia Laura.

 

       A foto é de quando ela era muito moça, tinha vinte anos, não a conheci assim, mas não pude resistir quando tive que escolher entre essa foto e a da tia que conheci. Provavelmente meus filhos e meus netos também farão da mesma forma, quando tiverem que escolher uma foto minha. É duro envelhecer, eu não escapei da ação do tempo, bem como minha tia Laura também não pode fazê-lo.

 

       Minhas recordações de minha tia começam aos cinco, seis anos, freqüentando sua casa. Ela não era como minha tia de meigos olhos azuis, do sítio encantado. Era uma personalidade forte, grande batalhadora, que trabalho nenhum parecia extenuá-la. Ela e meu tio tinham uma papelaria, que também vendia, entre outras coisas diversas, tecido pintado para bordar, e nas datas comemorativas como Natal, Páscoa, e outras, cartões alusivos à data, artesanalmente decorados.

 

       As minhas primeiras recordações são de, passando alguns dias na casa dela, sairmos, depois do almoço, para comprar renda, que ela colocava como barrado nos tecidos que iriam ser bordados, e vidrilhos, miçangas, pó de purpurina e não sei mais o que para decorar os cartões. Das lembranças dessas saídas ficaram o grande calor e o cansaço que sentia. Minha tia, acho que também ficava cansada, porque ao voltarmos ela dizia que íamos descansar e ela e eu dormíamos na sua cama de casal. ”Fica quietinha Odette e dorme” é o que ela invariavelmente dizia. Acho que dormia logo, acompanhada do olhar de uma Nossa Senhora, que ficava pregada na parede, sobre a cabeceira da cama.

       Aquela Nossa Senhora é um capítulo a parte. Não sei se me enganava, o que é fácil ocorrer para uma criança de cinco anos, ou se aquilo tinha uma explicação que mesmo agora, sessenta e cinco anos passados, ainda não tive. O fato é que o olhar da Nossa Senhora me acompanhava, à direita, se lá estivesse, ou à esquerda, ou em frente, enfim em qualquer posição que me colocasse. Sempre foi e continua sendo um grande mistério para mim aquele olhar que me acompanhava em todos os pontos do quarto que estivesse.

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       Felizmente o olhar só me acompanhava quando estava no quarto, afortunadamente, porque aprontava um pouco.

 

 

       Meus primos eram moços. Minhas duas primas cursavam o normal, o curso que formava professores do ensino fundamental, que antigamente se chamava primário. Como futuras professoras tinham aulas de desenho pedagógico. O caderno de desenhos delas era cheio de patinhos, gatinhos e outros tais. Eles ficavam fechados numa escrivaninha que tinha uma tampa que a gente abria e fechava, mais ou menos como se fosse um toldo. Gostava de abrir a tampa e ver ela sumir, embutida em algum lugar. Abria a escrivaninha, pegava os cadernos de desenho, que eram material didático, e não para rabiscos, e me punha a fazer os meus patinhos, os meus gatinhos, procurando copiar os delas. Agora imagino o quanto elas ficavam furiosas com o estrago no seu caderno.  Não me lembro, entretanto de nenhuma saia justa para o meu lado. O que gostava também era quando vinham os amigos do meu primo, todos moços, como ele . Eles me colocavam no colo brincavam comigo e tinha um deles de quem dizia não gostar dos beijinhos porque eram molhados.

 

 

       O ponto alto nas estadas na casa da tia Laura era quando ela me deixava decorar algum cartão. O processo era assim: apertávamos um pequeno tubo com goma arábica, ou seja, cola. Ela saía por um buraco pequenininho e a gente ia passando essa cola nos lugares do cartão que a gente queria decorar. Vamos supor uma árvore de Natal. Ela tem seus galhos, que é onde a gente pendura as bolas, nestes galhos era passada a goma arábica, e depois em cima era jogada a purpurina. A árvore ficava com os galhos todos dourados. Era um serviço que requeria uma boa coordenação motora, pois a cola só podia, por exemplo, ser passada nos galhos, pois, senão a purpurina seria colada em algum lugar que não deveria ter nenhum adorno. Imagine como isto era um deleite para uma criança de cinco anos.

 

 

       Dos meus cinco, seis anos, vôo para os dezesseis. Foi quando comecei a viajar com a tia Laura. A primeira foi para uma estância em Atibaia. Fomos minha prima, já casada, com seu marido e filhos, minha tia e eu. Ficamos em um chalé, e meus primos com seus filhos, aliás, meus primos em segundo grau, em outro. Tia Laura e eu batíamos muito papo à noite, no chalé, e também no restaurante onde tomávamos as refeições e que ficava na sede do hotel. Adolescentes não costumam ser boa companhia para adultos, mas acredito que naquela época não tinha a síndrome de “teen”. As conversas eram muito agradáveis e gostava de estar com minha tia e provavelmente a recíproca era verdadeira.

 

       Lá no hotel, na sede, alguns casais faziam, à noite, uma mesa de buraco e para lá íamos o marido da minha prima e eu. O jogo era a leite de pato, mas nos distraíamos. Todas as noites lá íamos meu primo e eu, e só voltávamos tarde. Um dia minha tia me disse que não ficava bem estas saídas noturnas e cortou meu barato. Não contestei, aceitei numa boa, pois, estava acostumada a obedecer meus pais, em especial minha mãe, que era muito brava.

 

       Durante a temporada choveu uns dois dias e a temperatura caiu bastante. Tinha levado apenas shorts e blusas (hoje seriam camisetas), para usar durante o dia, e vestidos para os jantares. Não tinha um agasalho sequer. Sentia muito frio. Quando uma das senhoras que fazia parte do grupo da mesa de jogo, me convidou para a festinha de aniversário do filho, que ia ser comemorada no hotel, comecei a chorar. Eu me lembro de ter pensado que não teria roupa para a tal festinha. Delírio de adolescente: o que vestir para uma festinha infantil, pois, estava frio e eu não tinha um traje de gala para tal evento! Bem, delirando ou não comecei a chorar, dizendo que estava com saudades de casa. Isto é até possível que estivesse ocorrendo porque se estivesse casa não estaria passando frio. O fato é que imediatamente essa senhora montou a mesa de jogos e convidou alguns casais, no afã de me distrair, com toda certeza morrendo de pena de mim. Acho que tinha algum ibope com adultos. Um joguinho à tarde minha tia Laura não iria se opor. Imediatamente parei de chorar, no fundo, no fundo, me sentindo muito importante.

 

 

       Depois desta viagem para Atibaia passei a ir com a tia Laura frequentemente para Santos, onde a minha prima tinha um apartamento. Por vezes ia com toda a família, mas muitas vezes só com minha tia. Ela me elegera sua acompanhante. Daquelas ocasiões o que me recordo como se estivesse vivendo o fato agora, é o de enrolar minha tia antes de ir para o almoço em algum restaurante. Tomava meu banho depois da praia, e depois começava a me vestir bem demoradamente. Não terminava nunca, e depois de algum tempo dizia a ela que podia ir sozinha, pois, iria em seguida. Assim que ela saía, eu ,rapidinha, terminava de me aprontar e ia em algum barzinho tomar uma caipiroviska. Nunca soube se ela não percebia, pois, provavelmente chegava toda loquaz e com os olhos brilhando. Nunca falou nada, mas, sei que ela não aprovaria, pois era de costumes rígidos e bastante conservadores. Afinal, ainda nem tínhamos chegado na década de sessenta. Está ai um hábito que tenho até hoje. Para mim, praia tem que ter caipirinha.

 

 

 

 

       Que saudades me bateu agora da tia Laura.

  

 

       Continuei indo com ela para Santos, mas um tempinho se passou e entrei na Faculdade de Direito. Resolvi então que queria trabalhar. Embora tivesse estudado Grego, Latim, Filosofia, etc., não tinha qualquer habilitação para um emprego. Não é que a tia Laura me arrumou um emprego? A forma foi no mínimo inusitada. Perto do apartamento dela tinha uma escola de idiomas. Ela entrou e perguntou se não estavam precisando de professor de inglês porque ela tinha uma sobrinha que falava muito bem. Ora, ela tinha ouvido falar que eu era fluente em inglês, mas não poderia avaliar. Entretanto ela acreditava em mim. Se diziam isso a meu respeito, tinha que ser verdade, ela confiava em mim; não era apenas a companhia para viagens.

        Graças a ela consegui meu primeiro emprego e nele permaneci até começar a trabalhar como estagiária de Direito. Ia para a Faculdade de manhã, trabalhava no escritório à tarde e depois ia para a escola lecionar. Não tinha tempo para passar em casa, tomar banho, fazer um lanche, antes de ir para meu segundo emprego. Mais uma vez minha tia Laura estendeu sua mão. Antes de ir para a escola onde lecionava , passava na sua papelaria, pegava a chave do apartamento, e lá tomava banho e lanchava. Neste quesito minha tia era como a minha tia Esther, do sítio encantado. A mesa da sala de jantar de sua casa nunca estava vazia. Ela era forrada de bolos, doces, e não me lembro de quais outras iguarias, mas tinha tudo que você possa imaginar para um fartíssimo lanche.

       Tomava banho e lanchava, sentindo-me em sua casa como se estivesse na minha. À caminho da escola passava na papelaria e devolvia a chave, que no dia seguinte, com muito carinho ela me emprestava novamente.

 

       Alguns anos se passaram, casei-me, tive meus filhos e já não a visitava com muita freqüência, mas, alternava as esporádicas visitas com saudosos telefonemas. Sabia que do outro lado da linha estava uma pessoa muito querida e que correspondia este afeto. Tenho que confessar que algumas vezes ficava enciumada quando ela dizia que o primeiro sobrinho, por esta condição, tinha um especial significado. Eu não era este primeiro sobrinho, mas parece que isto não alterou o carinho que ela sempre me dispensou.

 

 

       Ela perdeu seu filho mais velho, aos quarenta e nove anos, por problemas cardíacos. Desde então, envolta em profunda depressão, encerrou-se num mundo só seu. De certa forma, despediu-se de nós para viver mergulhada na sua dor. Ainda viveu muitos anos, mas, não pude mais participar de sua vida. Só restou o esboço de um sorriso, que conheci largo, nas poucas vezes que voltei a vê-la.   

                                 

 

 

 

                       

               O tempo passou e muita coisa mudou

 

       Esta é uma foto da Avenida São João em 1952. Resolvi escrever sobre aqueles tempos, pois, às vezes cito em minhas crônicas locais como Rua do Arouche, Praça da República, Praça João Mendes e tenho certeza que muitos não fazem à mínima idéia de onde sejam estes lugares. Também não entendem como a maioria da população, de todas as classes sociais, andava de ônibus, além de outras referências que faço a um passado de aproximadamente cinco décadas atrás.

 

       Pela foto vêem-se tão poucos carros que é até possível contá-los. O meio de transporte dominante é o bonde, e estes fechados eram chamados “camarões”. Os ônibus seguiam o padrão comum.

       Há um homem atravessando a rua e ele está vestido com um terno. Naquela época os homens só se vestiam assim e se algum estivesse sem o terno tradicional e com gravata, era impedido de entrar no cinema.

       Felizmente na época da foto acima, os homens já não precisavam andar de chapéu, o que já era um avanço, porque me lembro do meu pai, quando pequena, sempre de chapéu. Aliás, os homens tinham seus códigos de bom tom, e era considerado um “desrespeito” sentar-se à mesa sem estar de paletó.

 

        Mulheres usando calça comprida, nem pensar.Falando do assunto, lembro-me de um dia em que fui tratar de uma pendência, na Caixa Econômica do centro. Naquela época, isto foi próximo de 1970, as mulheres já saíam à rua de calça comprida, especialmente em dias frios. Como fazia muito frio no dia em que fui à Caixa, estava com aquela indumentária. Ocorre que precisei ir ao Fórum para acertar uma papelada, sem a qual não podia resolver os trâmites burocráticos que estavam pendentes. Cheguei ao Fórum quando os funcionários estavam entrando e por isso pensei que passaria despercebida. Naquela época as mulheres não podiam entrar naquele recinto usando calças compridas. Assim que senti as mãos de um guarda nos meus ombros, puxei uma funcionária que estava com um casaco comprido, pois já sabia o que o guarda queria comigo. Do lado de fora pedi o casaco da funcionária emprestado, enrolei minhas calças compridas e assim consegui entrar. Ela me acompanhou por todos os lugares onde fui, pois, disse que não poderia ser vista circulando sem o seu casaco, que ocultava o meu grave “delito”.

 

 

       Rememorando este fato lembro-me do frio que sentia no ponto de ônibus, com as pernas apenas cobertas com meias de náilon, quando saía do escritório de advocacia que trabalhava. Além deste frio, lembro-me também dos meus tempos escolares, quando de saia de uniforme, sentada numa carteira na frente da classe, uma janela aberta, deixava minhas pernas arrepiadas de tanto frio. Geralmente eu me levantava e fechava a janela. Minhas colegas que se sentavam no fundo reclamavam e eu mandava que elas abrissem à janela perto delas. Não poucas vezes ocorreram discussões acaloradas no meio da aula. Não consigo me lembrar quem ganhava a parada, mas, do frio, eu não vou esquecer nunca.

 

       Acho que o uso de calças compridas pelas mulheres foi uma conquista e tanto.

       Não quero enveredar por considerações sociológicas, mudanças de comportamento ou conquistas femininas, mas, registrar o frio que passava, pois, mulher não poder usar calça comprida, é algo que não dá para esquecer.  Não consigo esquecer os ventos gelados e eu exposta a eles, tremendo, e sem poder fazer nada.

       Agora, alguns homens resistiram a essa mudança e o meu sogro foi um deles. Nunca deixou minha sogra usar calças compridas, pois, não as achava elegantes numa mulher. Disse que não iria enveredar por análises sociológicas, mas, falar do machismo daquela época não pode ser deixado de lado.

       Ele era tão grande que até nós mulheres embarcávamos na deles. Eu ouvi mulheres advogando a superioridade intelectual do homem. Eles conseguiam que nós acreditássemos nisto. A mulher não podia trabalhar fora porque o papel do homem era ser o provedor da casa e se sua esposa trabalhasse, estaria atestando que ele não tinha capacidade para tal. Lembro-me de uma colega contando que precisara viajar ao Rio a trabalho e ouviu do seu namorado:”eta mulher macho”!! Essa não pode exercer a advocacia depois que se casou. Era tão comum ouvir de moça falando que o namorado não a deixava usar um vestido com decote, ou estabelecendo que comprimento devesse ter a barra da saia. Meu namorado, ou, meu marido não deixa, eram frases que estavam na ponta da

língua de qualquer mulher.

 

 

 

 

A foto acima é de uma mulher elegantemente trajada. Entretanto, as saias rodadas, a cinturinha de pilão e as luvinhas estavam presentes em qualquer ocasião. O corpinho tinha que ser um,

 

 

 

 

que os britânicos chamam de ampulheta. Nada de corpos retos. Não se falava em anorexia antigamente.

       Voltando ao traje da foto, normalmente se ia vestida, naquela elegância, com chapéu, em ocasiões como uma avant-première, como se chamavam as pré-exibições de hoje.

         Quando estava falando da Avenida São João esqueci de falar que os cinemas eram por lá. Na época não havia shopping centers e os grandes cinemas ficavam no centro, mas, as mocinhas podiam ir, mesmo à noite, despreocupadamente. Hoje, mesmo durante o dia, não há muita segurança, à noite, então, nem pensar.  No centro antigo ainda resiste bravamente o bar Brahma, que deve ser freqüentado por nostálgicos que vão ouvir Cauby Peixoto, que se apresenta por lá não sei que dia da semana. Aliás, tenho grandes saudades desse bar. Freqüentei muito quando era moça e dele guardo muito boas recordações

 

              

       Outra ocasião para se por em grande gala era a ida ao teatro. Até mesmo para ir à missa, vestia-se com apuro. O chapéu, pelo menos na minha época, tirando alguns eventos especiais, como o que citei acima, era mais reservado para casamentos. Não era como hoje em dia, em que se alugam os chapéus. Minha irmã, 11 anos mais nova que eu, se lembra muito nitidamente dos meus chapéus. Havia os pequenos e os de aba larga que ficavam guardados em casa, condicionados em caixas especiais. Minha mãe pegou o tempo em que as mulheres saiam à rua de chapeuzinho. Eu, para sair à rua só peguei a época que se usavam boinas. Estas eram de cores e tecidos diversos e elegantemente presas à cabeça. Acabei de lembrar-me que quando tinha 15 anos fui a um chá no Mappin, loja de departamentos muito famosa à época, que num elegante salão, tinha o chá da tarde. Neste dia também fui de chapeuzinho. Dando um balanço agora, creio que os chapéus eram reservados para os casamentos ou ocasiões muito especiais, como falei das avant premières, sem esquecer dos grandes prêmios no Jockei Clube.

       Quase ia me esquecendo de outra ocasião em que se usava chapéu. Casei-me em 1963, mas até aquela data, ainda resistia bravamente à tradição, recém-casadas, partirem para a lua de mel, devidamente paramentadas com um chapeuzinho. A única coisa que diferia é que os chapéus eram alugados, passara o tempo de ter chapéus em casa.

      

       As luvas são um capítulo à parte. Andávamos de ônibus, mas sempre enluvadas. Recordo-me de estar grávida, creio que de quatro meses e, portanto, não muito visível, ter passado na rua por um antigo namorado, e ficado aflita, pois, como estava de luvas ele não podia ver minha aliança e poderia pensar que eu estava grávida solteira. Isto naquela época era o horror dos horrores. Tinha pai que punha filha para fora de casa, o Código Civil, admitia que a filha grávida, solteira, pudesse ser deserdada, por “desonestidade da filha que vive na casa paterna”, e por aí afora.

 

       Falando em Código Civil, a condição da mulher mudou, creio mais que tudo, tanto se falando em mudanças de locais, ou sociais, comportamentais ou qualquer outra mudança que o passar do tempo tenha operado.

 

       Em 1995 terminei a graduação em História. Pretendia fazer mestrado e tinha como projeto estudar, à luz da legislação, a condição da mulher no Brasil-colônia. Estudei amplamente a legislação daquele período e me julguei pronta para seguir em frente com o meu projeto. Acontece que entre as aquisições de livros para minha pesquisa encontrei um livro raro de Direito da Família de um dos autores do Código Civil, o jurista “papa” do Direito: Clóvis Bevilacqua. Adquiri o livro para fazer um confronto entre essa legislação e a que regia o Brasil quando era colônia. Qual não foi a minha surpresa quando vi que muitos dispositivos legais aplicados à mulher quando o país era dependente do reino português, se assemelhavam bastante aos do Código Civil brasileiro do século XX. Desisti do meu projeto.

 

       Fiz esta pequena digressão apenas para dar continuidade ao que falava sobre as mudanças, no caso especificamente da legislação, operadas sobre a mulher. Imagine que quando fiz meu curso de Direito a mulher saía diretamente do domínio do pai para passar a ser tutelada pelo marido. Ela era considerada relativamente incapaz, ou seja, eram anuláveis os atos por ela praticados, da mesma forma que o eram os praticados por menores de vinte e um anos, os pródigos e os silvícolas. A lei se referia a “mulheres casadas, enquanto subsistir a sociedade conjugal”. Era o casamento que tornava a mulher relativamente incapaz e isto por sua posição na sociedade conjugal, pois, como era uma sociedade, exigia um chefe, e esse era o marido. Ora, se a lei dava este tratamento às mulheres, não é a toa que as mulheres vivessem repetindo “meu marido não deixa”, e, como disse acima, elas próprias advogavam a superioridade masculina, até mesmo a intelectual. Realmente o tempo passou e muita, muita coisa mudou.

 

 

       Falei muito sobre a mulher, nas mudanças que se operaram, mas, foram tantos os progressos nestes últimos cinqüenta anos que isto seria tema para um livro de vários tomos. O meu intento, porém é falar, superficialmente, sobre como o tempo passou e algumas mudanças que trouxe.

 

       Não posso deixar de destacar algumas das mudanças que o novo Código Civil, de 2002, trouxe para a mulher. Começo pelo absurdo da “virgindade”. Pelo Código anterior, em pleno século XX, o homem poderia pedir a anulação do casamento se descobrisse que a mulher não era mais virgem. Hoje a questão da virgindade nem é mais tratada.

 

       Antes o homem exercia o “pátrio poder” hoje nem existe mais. Fala-se em “poder familiar” que é exercido igualmente pela mãe e pelo pai. Lembram-se de quando falei que o homem era o “provedor” da família e até por isso impedia que a mulher fosse trabalhar? Pois é, isso também acabou e a obrigação de sustento da família é exercido igualmente pela mãe e pelo pai.

 

       Falei também do horror que era ser mãe solteira. Agora, essa mãe e o filho são considerados um família.

 

       Havia também o problema da guarda dos filhos. A mulher era, via de regra, considerada a mais capaz. Hoje são vários os critérios a serem analisados para definir quem será o melhor guardião. Há ainda a possibilidade da guarda ser compartilhada.

 

       Só há um ponto que não sei se as mulheres levaram a melhor: elas também podem ser condenadas a pagar pensão ao marido.

 

       Além das mudanças significativas que se operaram na legislação, no que tange a mulher, outra alteração visível, que em São Paulo está quase gerando o caos, é a presença dos carros nas ruas.

 

 

       Por diversas vezes mencionei o fato de como eram poucos os carros e, em conseqüência como poucos o tinham. Tudo começou mais ou menos assim:

O Fusca

 

      

 

 

 

       Até o governo Juscelino Kubitscheck não tínhamos no Brasil uma indústria automobilística. Foi durante este governo, de l956 a 1961 que o Brasil se transformou de país agrário para uma sociedade urbana. O grande presidente dizia que sua meta era 50 anos em 5. Ele quase tornou real a sua meta. O Brasil realmente deu um salto qualitativamente imenso. Foi durante seu governo que se construiu Brasília, que houve a ampliação do setor industrial, e principalmente, houve a implantação de uma indústria automobilística. Foi a partir dessa data que os carros, agora fabricados no Brasil, tiveram seu uso difundido.

       O Fusca foi um símbolo da introdução do automóvel em nosso cotidiano. Creio que praticamente todos os brasileiros com mais de 50 anos tenham aprendido a dirigir no “besouro “ da Volkswagem. Era com muito orgulho que alguém dizia ter um Fusca “0”.

 

       Posteriormente, aproximadamente 10 anos depois, surgiram alguns carros grandes e possantes como o Galaxy, se minha memória não estiver me pregando alguma peça, mas o predomínio do Fusca, que desfrutava de tanta popularidade por sua eficiência, economia e robustez produziu seus filhotes: a Variant, o Karmanghia, o Brasília e o Gol. Pelo menos do Gol deve haver muitos que ainda se lembrem dele.

 

       Juscelino implantou a indústria automobilística e ela se firmou a ponto de algumas cidades terem um carro para cada duas pessoas. A imagem daquela Avenida São João com um número de carros que dá para se contar parece até ficção científica (no sentido inverso).

 

       Rememorar tanta coisa não me traz nostalgia nenhuma. Pelo contrário, sinto ter tido uma vida muito rica por ter vivido e assistido tantas transformações.

 

       Vou começar mencionando os presidentes. Foram da minha época os dois maiores presidentes do Brasil: Getúlio Vargas e Juscelino Kubtischek, de quem já falei. Getúlio Vargas, infelizmente, se manteve no poder por longos anos, instalando um governo ditatorial. A despeito disso fez parte ativa do progresso para que um Brasil essencialmente agrário, desse seus primeiros passos rumo à industrialização. Mais do que os incipientes passos dados foi a sua política nacionalista, que investiu muito na área de infra estrutura. Criou a Cia. Siderúrgica Nacional, a Vale do Rio Doce e em seu segundo governo, agora eleito democraticamente, criou a campanha “O Petróleo é Nosso”, que resultou na criação da Petrobrás.

 

       Vargas, em sua época foi chamado de “pai dos pobres”  pelas mudanças que se operaram nas relações entre empregados e empregadores, com a CLT. É bem verdade que hoje ela está superada e até contribui negativamente para a competitividade dos nossos produtos, mas àquela época as relações entre trabalhadores e patrões por vezes chegavam a ser desumanas. Seu nome, é muito associado a radical mudança que se operou nas relações de trabalho, mas é de máxima importância que seja ressaltada sua política responsável pela implantação da infra-estrutura que  levou à criação de  companhias do porte das acima citadas.

 

       Não é apenas por ter vivido quando estes dois presidentes estiveram à frente do país que tornou minha vida mais rica. Foi a constatação, ao escrever este texto, que assisti a tantas mudanças e as incorporei de forma tão natural que até parece que nem o tempo passou e nem o mundo mudou.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Olá amigos,

Gostaria de receber os comentários dos visitantes que desconheço. Comecei a escrever em agosto e por isso ouvir voces me seria muito prazeiroso.

Abraços,

Odette

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