My Trip


Bem, começo explicando o título: pensei em vários, finalmente decidi que queria: “minha viagem”. Entretanto, “minha vigem” soou-me como o típico título que as professoras do ensino fundamental aplicam após as férias, assim, resolvi escrever o título em inglês, língua que usei o tempo todo nesta viagem, além de algum francês em Genebra e também alguns danke schön, pois o que não faltava era ouvir alemão.

A viagem foi o próprio samba do crioulo doido em matéria de locomoção. Tomei 8 aviões e estive em 5 aeroportos diferentes, cada um com seus códigos, para todas as informações que precisei. Não adianta ter experiências em outros aeroportos, pois, cada um tem sua linguagem. Assim, quando achei que o pulo do gato para localizar as bagagens era só seguir a seta baggages,no outro havia a seta sobre o desenho de uma mala estilizada. E assim foi de aeroporto em aeroporto. As informações sobre os gates num vôo com conexão, às vezes eu encontrava numa telinha dentro do próprio avião,em outro vôo foi na base do “se vira malandro” e acabei achando num espaço qualquer do aeroporto. Interessante é que sou uma pessoa estressadinha quando atendo encanadores, eletricistas, técnicos para conserto de algum eletro doméstico, mas, naquelas ocasiões, com apenas 1 hora entre uma conexão e outra, eu, mais perdida que cego em dia de tiroteio, me mantinha bastante relax. Só vou contar um caso em que até derramei umas lágrimas: foi no aeroporto de Veneza, de onde faria escala em Zurique, para o destino final que era Genebra. Numa tela encontrei que deveria ir para o guichê 40. Fui até lá, seguindo as instruções de um funcionário do aeroporto. Acontece que estava escrito Lufthansa. Perguntei a alguns passageiros que estavam numa fila neste guichê e todos iam voar pela Lufthansa. Acontece que eu ia pela Swiss Air e assim, voltei a falar com o funcionário, e foi nessa ocasião que derramei as lágrimas porque além de tudo estava com um tremendo complexo de culpa porque não tinha feito o self check in. Estava acostumada a ter o meu check in feito por funcionárias das companhias aéreas. Bem, o funcionário disse para eu me acalmar e voltar no guichê 40. Desta vez perguntei a um casal se estava indo pela Lufthansa e como eu poderia ser atendida ali se estava voando por outra companhia. Ele deu um sorrisão e disse que as companhias eram a mesma e ainda me apontou um Star Alliance escrito abaixo do Lufthansa. Foi aí que relaxei e principalmente depois de encontrar uma moça que tinha visto no vôo para Veneza e ia tomar o mesmo vôo que eu.

Depois de relatar minhas experiências em matéria de locomoção para Amsterdam, Viena, Veneza e Genebra, em 10 dias, vou primeiro explicar porque decidi fazer esta viagem em tão curto período de tempo. Comecei minhas pesquisas nas correspondências que recebo de agências de turismo e através delas vi que nas excursões, o tempo em que elas se detinham em cada cidade era de 2 a 3dias. Depois passei a pesquisar na Internet os pontos turísticos das cidades para onde iria. De posse das informações resolvi ficar 2 dias em Amsterdam, 3 em Viena, 2 em Veneza e finalmente os últimos 2 dias em Genebra.

Saí de São Paulo no dia 1º de Junho e cheguei em Amsterdam no dia 2, com uma diferença de 5 horas no fuso horário. Fui pela KLM e achei a companhia ótima. Já voei por outras companhias e por vezes o pessoal de bordo é muito grosseiro ou matam a gente de fome. Aliás, em uma das companhias eles aliavam os dois atributos. A KLM, entretanto, tinha um pessoal de bordo muito solícito e a alimentação era fartíssima.

Chegando ao hotel, depois das formalidades de praxe, subi com minha bagagem e apenas retirei da mala a sacola com os produtos de toalete que, como imaginava, estava toda banhada em perfume que tinha se derramado. Desci, informei-me onde poderia achar o barco para andar através dos canais e para lá me dirigi. Paguei 3 euros, a única coisa barata lá. Imagine que o táxi foi 55 euros e no frigobar uma garrafinha de água custava 4.50. O tour foi agradável, debaixo de bastante calor e fiquei interessadíssima quando foi dito que estávamos passando pelo Red Light. Tinha sido informada que lá as “prostitutas sexuais”, como as chama o hilário detetive Monk, ficavam como manequins vivos em uma vitrine, completamente despidas. Meu filho já tinha me dito que não era bem assim, que elas ficavam em trajes sumários, com um ar de tédio total. Bem, de qualquer forma não pude conferir nada, pois apenas o que vi foi um monte de sex shop. Posteriormente vim a saber que elas ficam numa ruazinha e não nas ruas que ladeiam os canais. Neste passeio através dos canais tive minhas primeiras impressões sobre a cidade. Não achei a cidade bonita, as casas de tijolinho a vista me pareceram muito antigas. Desembarcando do barco voltei para o hotel e como a cidade estava em obras e era preciso tomar muito cuidado com as bicicletas para não ser atropelada. Com a cidade em obras era difícil, pelo menos naquele ponto, driblar as bicicletas e os ônibus elétricos que andavam sobre trilhos, embora o trânsito não fosse tão caótico quanto o de Roma. Mas, enfim, aquelas foram as minhas primeiras impressões, que talvez estivessem um pouco negativas pois esperava muito da cidade em matéria de beleza e também porque afinal tinha feito uma viagem de 11 horas, sem dormir e era um atropelo de emoções. Esqueci de contar que ao sair do avião me deparei com um guarda com um enorme cachorro, como se estivesse a nossa espera. Acho que o cão era para farejar drogas. Pensava que as drogas eram importadas de lá, mas pelo visto o tráfico é de mão dupla. Não vi nos outros países esse aparato policial.

Voltando ao relato das minhas impressões sobre a cidade, juntei outras imagens e vi que a impressão negativa relativa a aparência da cidade talvez fosse porque estivesse no centro da cidade. Em outras cidades o downtown também nunca era bonito.

Na manhã do dia seguinte, munida de mapa fui até Dam Square. Para chegar lá fui pela Kalverstraat ,uma rua de lojas. Não gostei da modinha de verão e até entrei numa delas para ver se achava qualquer coisa que apreciasse. Não achei nada e o pior é que quando saí da loja, como tenho péssimo sentido de direção, fui andando na direção contrária. Já estou acostumada com isto e logo percebi. Abrindo um parágrafo, parece incrível que uma pessoa sem sentido de direção viaje sozinha, mas o que sempre faço é pedir informações e normalmente as pessoas são muito solícitas, especialmente agora que tenho setenta anos. Então, como faço normalmente, informei-me sobre qual direção deveria ir para chegar na Dam Square. Felizmente em Amsterdam todo mundo fala inglês e assim, debaixo de chuva, protegida apenas pelo capuz do impermeável cheguei ao meu destino. Como do meu hotel (Jolly Carlton) ouvia as badaladas de sinos a cada hora, perguntei a várias pessoas onde ficava uma igreja por lá. Ninguém soube me informar, o que foi uma pena, pois vim a saber que havia uma bonita igreja por lá. Pensei que as pessoas não soubessem da existência de uma igreja por estar num país de população predominantemente calvinista. Posteriormente, numa das minhas pesquisas pela internet vi que a população católica é bastante expressiva o que significa apenas, neste caso, que não falei com as pessoas certas. Passei em frente a um museu de cera que deveria ser tipo o Madame Tussaud de Londres e depois retornei pela Kalverstraat para então ir procurar a Paulus Potterstraat, por onde deveria seguir para chegar ao museu van Gogh, Diamant Museum e Keytours para comprar um citytour para Voledam, cidadezinha onde se encontra o típico da Holanda. Passei primeiro no denominado Diamant Museum, vi várias jóias de diamantes mas não me pareceu estar num museu. Posteriormente, consultando meus tickets vi que tinha um recibo de 30 euros, referentes ao preço do citytour para Voledam e lá estava escrito: Diamant Museum e também um www.diamantmuseumamsterdam.nl. Entrei no site e vi que não tinha estado no tal museu, mas sim provavelmente num local onde eram vendidas peças de brilhante. Bom, mas não perdi nada com isto porque pouco me importo com brilhantes. A entrada no local valeu para que eu comprasse o ingresso para o museu van Gogh.

Adoro o pintor principalmente pela explosão de luzes e cores em suas obras. Minha grande surpresa foram os quadros pesados e escuros que o genial artista pintou no início de sua carreira. Desconhecia este período e voltando para casa fui ler sobre o pintor e descobri os aspectos de sua vida antes de dedicar-se a pintura, o porquê de um fundo sombrio em seus quadros antes de ser o extraordinário intérprete de cores e luzes.

Essa é também uma das delícias de viajar: descobrir que não se sabia algo e depois pesquisar aquilo que não sabíamos.

Terminada a minha visita ao museu van Gogh voltei ao “diamant museum” para de lá pegar o ônibus que me levaria a Voledam. Adorei a cidadezinha rural com aquelas casinhas campestres, muito verde, e cabras pastando. Visitamos um local onde se fabricava queijo e lá estavam as coradas holandesinhas com seus trajes típicos com direito a tamanquinho que me surpreenderam ao ver que são de madeira. Tivemos algum tempo e assim pude comprar para minhas netas bonequinhas holandesas e mais algumas coisinhas. Depois, fizemos uma viagem de barco e descemos num local onde, antes da construção dos diques, a água do mar por vezes avançava até onde as casas tinham sido construídas, e por isto muitas delas eram construídas sobre estacas, ou então construíam uma espécie de morrinhos artificiais para que as casas ficassem em nível mais alto. Nesta excursão havia duas brasileiras e uma delas comentou que a adversidade da região provavelmente levara seus habitantes a lutarem contra as forças da natureza,contribuindo para que tivessem tal crescimento econômico. Lembrei-me das palafitas no Amazonas e disso que elas, em hipótese alguma tinham tornado a região próspera ou ao menos com menos miséria. O assunto parou por aí até que vi uma casinha e pensei: “já vi uma destas no Brasil em alguma viagem”. A seguir lembrei-me que tinha sido em Gramados, para onde viajara com minha irmã e seu marido. Quando falei com ela e ainda me lembrei que lá eram vendidas apfelstrudel (denunciando a origem, pois sua tradução é torta de maçã, )vi que realmente tínhamos visitado uma casinha como aquela. Incrível como mesmo sem tirar fotos as imagens ficam gravadas.

Para dizer a verdade o que gostei mesmo da minha ida à Amsterdam foram a visita ao museu van Gogh e a ida a Voledam. O que gostaria de ter visitado era a casa da Anne Frank, mas não houve tempo hábil. Vi umas fotos de pessoas na rua, em fila para poderem entrar, e um aviso que os ingressos tinham que ser comprados com antecedência. Dois dias foram insuficientes para a visita, subestimei os locais a serem visitado. Agora Inês é morta e assim, no dia 4 de junho, embarquei para a majestosa Viena

Não tinha qualquer expectativa em especial e eis que me deparo com uma belíssima cidade, impressão que tive praticamente do trajeto aeroporto ao hotel. Este ficava localizado no 9º subdistrito. Toda Viena é dividida em subdistritos, a partir do centro, enumerado como o 1º. Nas placas das ruas, antes do nome está o número. Isto é bom para a gente se localizar, principalmente quando a gente está perdida, aliás, ao que parece, meu esporte favorito.

No trajeto aeroporto-hotel passei por prédios muito grandes, com belíssima arquitetura, diria até majestosos, nos remetendo aos tempos imperiais. O hotel que fiquei chamava-se Hotel- Palais e seguramente num passado remoto pode ter sido um palácio. Bem, lá chegando, depois das formalidades de praxe e desembaraço das bagagens fui à recepção solicitar que fizessem uma reserva para o dia seguinte em um tour pela cidade. Pedi ainda que me fosse fornecido um mapa da cidade e fossem destacados os lugares turísticos próximos para que onde pretendia ir na manhã do dia seguinte, andando a pé. De posse das informações retornei ao meu quarto, desfiz as malas (única vez na viagem e parcialmente), tomei banho e fui me deitar. No quesito banho, tenho que destacar a ausência de chuveiros, como os que estamos acostumados. Lá o costume é ter uma banheira imensa com chuveirinho. Em alguns lugares há uma forma meio precária de dependurar a ducha, na tentativa de transformá-la em chuveiro. Funciona mal a adaptação principalmente por causa das torneiras “inteligentes”. Em um hotel, não me lembro onde, a água saía pela torneira, diretamente para a banheira e ao mesmo tempo pelo chuveirinho. Não gosto de desperdício e, portanto, embora não fosse pagar por aquela água que escoava pelo ralo, incomodava-me o esbanjamento. Tentei com persistência que a água não saísse pela torneira da banheira, mas a “inteligência” das torneiras venceu-me. Que saudades tenho das simples torneiras q e f, indicando a temperatura da água que delas sairá. Depois da luta com as torneiras saí do banho e fui dormir. Coloquei o despertador para as 8 horas e em algum momento dormi.

No dia seguinte, logo ao despertar abri a cortina e vi que estava chovendo. Pensei, lá se vai o passeio a pé . Tomei café e voltei ao quarto onde joguei-me sobre a cama pois não estava me sentindo bem. Dois ou três dias antes de viajar tive um forte resfriado e por isto havia levado comprimidos anti-gripais e estes, depois de algumas horas deitada tiraram as dores que sentia pelo corpo. Já refeita, fui fazer o tour pela cidade no período da tarde. Uma van passava nos hotéis e pegava os turistas para os diversos tours. Embarcados nos ônibus iniciava-se o roteiro: À esquerda vemos… à direita vemos…em mais de uma língua. Escolhia sempre o espanhol que é de mais fácil compreensão nestas ocasiões e lá fui eu tendo a visão panorâmica do Parlamento, Catedral de Santo Estevão, Jardins do Palácio de Belvedere, que recebeu esta denominação, por proporcionar um bela vista (bel vedere) .Não houve oportunidade para perguntar porque a utilização de uma língua latina. Vimos também o Teatro da Ópera e visitamos o Palácio de Schönbrunn. Este foi um espetáculo a parte. É muito parecido com o palácio de Versailles, começando pelos imensos jardins. A visita ao seu interior impregnava-se de História e voltei determinada a estudar sobre os Habsburgos. Foi lá que fiquei sabendo que Sissi, imperatriz da Áustria, levada às telas nos filmes Sissi I, II e III, que tanto encantaram as platéias dos cinemas em minha época, tinha sido assassinada. Quando voltei perguntei ao meu marido se sabia deste fato e ele disse que não. Minha irmã que também visitou o palácio Schönbrunn, também desconhecia o fato e gostaria muito de poder rever ao menos um filme e recordar a romântica história da imperatriz. São estes flash back que por vezes tornam algo numa viagem tão inesquecíveis .

As companhias que nos levam a estes tours nos apanham nos hotéis mas depois nos deixam em qualquer lugar. Como estava no centro pedi que me deixassem em frente à Ópera, pois, sabia que ela era próxima de uma rua chamada Ringstrasse (em Amsterdã, as ruas eram straat, em Viena strasse,e temos street em inglês). Adoro saber a etimologia das palavras. Bem, voltemos a Ringstrasse. Tinha levantado na internet que lá estava localizado o mais moderno shopping center, que, aliás, chama-se Ringstraassegalerie. Nesta rua havia vários cafés e restaurantes e aproveitei para jantar num restaurante italiano. O dono não falava inglês e tive que me virar num italiano que confundia Grazie com Gracias. Havia vários restaurantes italianos e me pergunto o porquê, uma vez que buscando no Google: “Ringstrasse” há indicação de vários sites em italiano. A ida a aquela rua foi ótima sob vários aspectos: estive em frente à Ópera a pé, podendo ter melhor visão da imponência do edifício, tive um maior contato com a zona central (zona 1) que, se não estiver errada é tombada como patrimônio histórico da humanidade; conheci o tal shopping center, fiquei a par dos preços de um cabeleireiro, do qual já estava sentindo falta, caminhei pelo centro histórico e para voltar ao hotel mais uma vez me vali do “quem tem boca vai à Roma”. Perguntei a duas mocinhas se poderia ir à pé do 1º ao 9º subdistrito. Elas acharam que ia ser muito longe e me apontaram um ônibus que poderia pegar, mas, em seguida começaram a falar entre elas e então perguntei: “what about a taxi?”. Elas concordaram na hora e disseram que não ia ficar muito caro, por volta de dez euros. Havia um ponto de táxi logo ali perto e o primeiro que peguei tinha um G.P.S. e num instantinho cheguei ao meu Hotel Palais….

A única vez que vi um ponto de táxi na minha viagem foi esta. Acostumada com a fartura de táxis aqui em São Paulo, isto também me surpreendeu. Agora, volto à Ópera. Vim a saber, mais tarde, que havia também uma programação que incluía uma ida à Opera, para assistir um concerto sinfônico e depois uma ceia. Imagine, assistir um concerto sinfônico em Viena –Wien- Stadt der Musik- (Viena- cidade da Música, o título de um CD de música clássica que adquiri lá), deve ser o supra sumo da emoção. Mas, como sempre viajo sozinha, não costumo sair à noite e, portanto, não tinha levado roupa para poder ir à um concerto sinfônico. Assim foi, como, mutatis mutandi ter ido à Buenos Aires e não ter assistido a um show de tango. Mais uma vez tive que repetir: não adianta chorar em cima do leite derramado.

Voltando ao meu “Hotel Palais” pedi à recepcionista que fizesse, para o dia seguinte, uma reserva para um passeio de barco pelo Danúbio. Em seguida fui dormir, com o firme propósito de no dia seguinte, pela manhã, fazer os passeios a pé que não fizera, no dia anterior, por estar chovendo.

No dia seguinte, ao acordar, abro as cortinas e o que vejo? Chuva. Mais uma vez tomo o café e volto a deitar, como se estivesse adivinhando que teria de poupar minhas forças para a próxima cidade: Veneza. Às 14 horas desci, tomei a van que me levaria até o ônibus de turismo de onde seguiria para o tour pelo Danúbio. A caminho do local para pegar o barco passamos por um charmoso vilarerejo de vinicultores, com inúmeras tabernas, típicas ,chamada Grinzing. As tabernas no charmoso local são um “point”, e lá se misturam nativos e turistas. Não longe dali estavam os bosques de Viena.

Chegamos ao local dos barcos para fazer o tour pelo Danúbio. O que me chamou a atenção em especial foi a cor das águas. Pelo menos naquele trecho, o Danúbio não era azul e sim verde. Havia uma espécie de “serviço de bordo” (evidentemente cobrado a parte) e pude fazer meu almoço-jantar. No meio do passeio começou a chover. Não sei se é coincidência ou em Viena, pelo menos nesta época, chove bastante. O final da Euro Copa neste ano em que a Espanha se sagrou campeã, realizado em fins de junho, foi debaixo de chuva. Quando chegamos ao nosso destino final, debaixo de forte chuva, um número de enorme de sras., alemãs, ao que pareciam e falavam, sacaram das bolsas os seus guarda-chuvas. Até mesmo os maridos também tinham os seus “pocket umbrellas”. Acabei de criar um neologismo, tão impressionada fiquei com todos aqueles guarda chuvas sendo providencialmente sacados. Bem, na rua a guia sugeriu-me que pegasse um táxi e eu, já descolada, vi que estávamos no 2º subdistrito e portanto a corrida ficaria em 9 euros. Falando em guia, lembrei-me de comentar que o número de alemães viajando devia ser bastante grande pois, primeiro os guias falavam em alemão, depois em inglês e por último em espanhol. O interessante é que parece que falavam bastante na primeira língua, um pouco menos na segunda e menos ainda na terceira. Deve ser complexo meu, de “país emergente”.

Cheguei ao hotel, ainda debaixo de chuva, e pedi à recepcionista que agendasse um táxi para mim, para o dia seguinte às 7 horas da manhã, devendo ser da mesma companhia que me levara ao hotel e que oferecia um desconto de 10% se voltássemos a chamá-los. Qual o meu espanto quando ao sair do elevador com minhas malas, pontualmente às 7 horas, um moço lindo, lindo (o motorista do táxi), com altura mínima de 1.90, num terno impecável, adentra o hotel, pega minhas malas, coloca no porta-malas, enquanto eu faço o check-out. Entrei no possante do rapaz e ele me perguntou que tipo de música eu gostaria de ouvir. Perguntou se clássica estava O.K. ,eu respondi que sim e lá fomos nós para o aeroporto ao som de música clássica. E assim, em grande estilo, deixei a majestosa Viena.

Fui primeiro para Zurich e, em conexão, tomei o avião que me levaria àquela ilha. Aí começaram as grandes andanças. Primeiro, andei, andei, andei, andei,……, puxando minha mala de rodinhas com a bagagem de mão em cima, pois não me adaptei ao carrinho deles, até chegar ao barco, que, navegando pelo Mediterrâneo, depois de 1hora e dez minutos nos deixou em terra firme. Na viagem constatei que embora as águas do Danúbio fossem verdes, as do Mediterrâneo, pelo menos no trajeto que fiz, eram azuis. Chegando a Veneza, depois de andar em cima de uma madeira estreita, entre o barco e o atracadouro, com minha mala de rodinhas, sem que ninguém tivesse ao menos se oferecido para me ajudar, recomecei a andar, andar, andar, andar………até conseguir localizar meu hotel. Achar o número de um prédio naquelas vielas não é tarefa fácil. Entre o local do desembarque e meu hotel passei na Praça São Marcos, onde estão a Basílica São Marcos e o Palácio Ducal. Antes já tinha passado defronte a várias barraquinhas que se assimilam a de nossos camelôs, mas que dão nota fiscal e constatei que eles odeiam quando a gente pechincha. Aliás, depois tive uma confirmação: lá eles têm os portos (carregadores) que se ofereciam para fazer o transporte da nossa bagagem até o hotel e se ofereciam por 15 euros. Quando chamei um, por ocasião de meu regresso, ele cobrou 20. Tentei que ficasse por quinze e ele disse, a seu modo, que se eu reclamasse ia pagar 30.

Chegando ao hotel, depois de muito perguntar, enquanto pegava meu voucher o recepcionista já falou: Mrs. Cypriano. Indaguei como ele sabia e sua resposta foi que era muito incomum ter uma senhora se hospedando sozinha. Recebi as chaves, subi ao meu quarto e depois de uma breve inspeção descubro que naquele hotel tinha chuveiro, não era como os outros, com banheira e chuveirinho. A cama também era arrumada como as nossas, com lençol de baixo, de cima e cobertor. No hotel anterior não havia o lençol de cima, só um edredom dentro de um lençol. Minha irmã já tinha comentado o apuro que passou num hotel em Paris onde não havia ar condicionado e nada de lençol de cima. A minha estratégia, onde só tinha o edredon, era tirá-lo de dentro do lençol e dormir dentro do mesmo. Minha irmã disse que não poderia fazer isso, pois ela e o marido não caberiam dentro do lençol. Acho que esta foi a única vantagem de estar viajando sozinha. Depois de feitas as inspeções, retirado alguma coisa da mala, desci para jantar. Ao comentar com o recepcionista que o que mais tinha gostado era do chuveiro uma senhora que estava ao lado deu uma gargalhada sonora. Entretanto era pura verdade. Naquele dia pude lavar a cabeça, tomar um banho demorado e por fim deitar porque sabia que o dia seguinte ia ser puxado.

O café da manhã era servido as 7.30 e há essa hora eu já estava lá, bem como muitos, muitos, americanos. Sentei-me em uma mesa, e como não houvesse outras desocupadas, um casal americano acompanhado da mãe do senhor, perguntou se poderiam partilhá-la. Sentaram-se e quando levantei, para me servir novamente de salada de frutas, o senhor falou que eu deveria gostar muito de frutas. Como tinha que falar alguma coisa respondi que era porque vinha de um país tropical. Perguntaram qual e quando disse que era do Brasil abriram um enorme sorrisão. Alias, este era o comportamento constante. Mais tarde comentei com um comissário de bordo da KLM e ele disse que os brasileiros são um povo muito simpático, alegre, comunicativo e por aí afora. Disse-lhe que antigamente tinha um pouco de vergonha por ser do “terceiro mundo”. Nesta hora estava me lembrando de uma excursão que fizera a Bath, na Inglaterra e não sei em que contexto o guia falou em leprosos e acrescentou que era uma doença que ainda não tinha sido erradicada no “terceiro mundo”, ao que parece para explicar o que era lepra, porque a turma, constituída só de europeus, não conhecia esta palavra, que ora apenas a nomeamos como hanseníase. Acrescentei ao comissário de bordo que provavelmente como agora estávamos com uma economia estável, no status de “país emergente” éramos mais bem recebidos. A resposta foi que embora nossa economia estivesse bem, ainda havia aqui muita miséria. Podia bem ter ido dormir sem essa, e só ficar na constatação de que o Brasil é visto lá fora e apreciado pelas características de seu povo. Voltando aos americanos, da minha mesa no café da manhã, engatilhamos uma conversa e naquela ocasião Obama ainda não era o candidato vencedor das prévias do partido democrático. A sra. mãe disse que tinha um pouco de receio pela pouca idade do candidato. O casal era disparadamente favorável a ele e não gostava de Bush. Disseram que a princípio acreditaram no que se dizia para fazer a invasão do Iraque, mas, que agora não acreditavam mais na sua legitimidade. Falamos sobre a atual economia dos Estados Unidos, e o sr. disse acreditar que aquilo fosse provisório. Engatei então: nessa ocasião espero que vocês comprem o nosso etanol. A resposta foi a que anda correndo para muitos. O americano disse-me que não gostava do etanol, pois, este estava sendo a causa da falta de alimentos e a conseqüente inflação mundial. Infelizmente a conversa terminou ali porque o grupo que excursionava estava deixando o restaurante. Acabei de me lembrar que falei que nosso presidente vinha da “working class” e a sra. falar, muito pensativamente, que talvez fosse bom se o mesmo ocorresse no país deles porque lá todos os presidentes tinham feito “law”.

Agora, vou voltar à Veneza, que quase me fez chorar, por instantes, de pura emoção. Antes disso, porém, preciso falar da Basílica de São Marco e do Palácio Ducal. Tanto um quanto outro são os pontos turísticos de maior acesso. Assim que me levantei fui à praça São Marcos para visitar ambos. Tive que reformular meu itinerário pois, por ser domingo, a visitação à Basílica é somente das l4 às 16 horas. Comecei então minha procura, através das vielinhas, da Ponte Rialto e do Grande Canal. Havia pouquíssimas indicações, mas de viela em viela acabei chegando lá, me acotovelando com um número imenso de turistas que, não sei como a cidade dá conta nas altas temporadas. Não tenho nada a comentar sobre os dois pontos, dado que, a meu ver, não têm nada especial. Valeu mesmo neste trajeto é entrar numa casa de internet( não era cyber porque não ofereciam café e nem lan house porque não havia crianças distraindo-se com seus games), abrir meus e-mails, para posteriormente dedicar-me ao esporte das compras. Até aquele dia não tinha tido quase tempo de comprar as lembrancinhas que rotineiramente a gente leva para distribuir a filhos, netos,etc. As lojas estavam lotadas e de certa forma surpreendeu-me estar todo o comércio aberto em pleno domingo. Ainda impressionada com a lembrança dos casais alemães e suas “pocket umbrellas” procurei comprar um daqueles guarda chuvas dobráveis, mas o único que encontrei tinha em todo seu tecido escrito VENEZIA, VENEZIA, VENEZIA,VENEZIA, não quatro vezes apenas, mas num verdadeiro carnaval. Não me senti disposta a enfrentar uma chuva no Brasil ostentando tanta VENEZIA. Afora esta pequena compra que não pode ser bem sucedida, encontrei tudo e para todos os gostos além das minhas expectativas. Incrível como não deixam de entregar o cupon da compra.

Depois de bater muita perna pelas lojas, Ponte Rialto e etc. fui para a fila à porta da Basílica. A fila já estava grande, dado que naquele dia o horário de visitação era de apenas duas horas, embora na véspera, quando cheguei, também havia fila. Esperando também o horário de entrada, havia um rapaz com o qual comecei a conversar, não sei por quê. Perguntei a ele sobre o Palácio Ducal, que ficava em frente, e quem era o doge. Pelas suas explicações deduzi que era um “king”. Ele retrucou que não era bem um “king’’ era um “seigneur” e assim deduzi tratar-se de uma figura da Idade Média, mais especificamente da Alta Idade Média. A fila em frente à Basílica começou a andar e fiz a visitação. Realmente ela é de grande beleza mas senti falta de um guia para ressaltar o que houvesse de mais belo. Acrescente-se ainda, que éramos praticamente empurrados para andar, face ao número enorme de visitantes. Saindo da Basílica fui visitar o Palácio Ducal, onde residia o doge. Desta vez senti ainda mais a falta de um guia. O palácio era imenso, um verdadeiro labirinto. Tinha recebido na entrada (ao custo de 5 euros, além da entrada, e ainda deixar o passaporte) uma espécie de controle remoto onde a gente pressionava os números que correspondiam ao local onde a gente se encontrava e era fornecida a explicação sobre o aposento onde nos encontrávamos. Naquele verdadeiro labirinto só umas poucas vezes o número que pressionei correspondia ao aposento. Uma vez tive sorte, pressionei o número correto e soube que estava na sala onde o Senado se reunia. A sala era imensa e fiquei muito surpresa ao saber que na Alta Idade Média, onde vigoravam os laços de vassalagem, havia um Senado. É bem verdade que, como assembléia política, já existia até entre os romanos A.C. mas jamais imaginei que ela pudesse estar presente na Alta Idade Média. Voltando para casa foi a primeira coisa que pesquisei. Veneza proclamava que seu governo era uma clássica república, tendo um conselho consultivo, uma espécie de ministério encarregado das questões de governo e um senado com 60 membros. Eis então porque a sala era de tão grande dimensão. Saí do Palácio lamentando bastante não ter tido um guia, como tivera, por exemplo, no palácio de Schönbrunn,em Viena, que tanto me encantou e despertou o interesse em melhor conhecer os Habsburgos.

Saindo do Palácio resolvi andar pela Praça e foi ali que quase chorei de emoção. A todo instante surgiam grupos cantantes, de vozes maravilhosas em um coro com uma harmonia impecável. Em frente a um café havia uma pequena orquestra tocando uma música que considero lindíssima, mas não conseguia lembrar-me seu nome. Só me vinha a cabeça o “I’ve got you under my skin”. Perguntei o nome da canção a uma senhora e ela disse que não sabia, mas colocou-me defronte da partitura da violinista e pude ver o nome da música que estava sendo executada: “Night and day”. É uma música do Cole Porter que tocava em todos os bailes, que eram muitos, em minha juventude. Não sei se a geração atual a conhece. Creio que a minha emoção foi motivada pelo cenário onde uma música me lançava aos tempos de juventude e por todas as vozes, reunidas em corais, que pela praça se faziam ouvir. Acho que o local para se ouvir tanta beleza tinha que ser Veneza com suas gôndolas.

Neste dia devo ter andado durante dez horas. Deixei de ir visitar outros pontos turísticos pois meus pés já estavam inchados e desisti de andar de gôndola pois um passeio ficava em 200 euros.

No dia seguinte recomecei minha maratona de caminhadas: do hotel até o barco e depois, do barco até o aeroporto, tendo ainda que enfrentar uma boa subida. Já comentei, logo no início, o meu “drama” para saber o local em que deveria fazer o check in e pegar meu “boarding pass”. Enquanto esperava, devo ter agido folclroricamente, mas estava realmente preocupada por não ter conseguido encaixar o feixe das alças que prendem as roupas dentro da mala. Assim, sem nem dar bola para a assistência, abri a mala e mostrei para uma senhora, através de mímica, pois ela não falava inglês, que as roupas estavam soltas dentro da mala. Ela cutucou o marido, mostrou o problema e ele fez o encaixe, depois de consertar o “defecto”,como ele disse. Livre de mais uma preocupação, segui eu para a fila de embarque do meu destino final.

Fiz a conexão Veneza-Zurich e depois Zurich–Genebra. No aeroporto havia uma van para levar os hóspedes do aeroporto ao hotel. Fiquei num Hotel-Cassino, 5 estrelas, a 5,7 minutos do aeroporto. Nunca imaginei que pudesse ter um aeroporto tão próximo e ele não era tão pequeno, como vim a sentir na pele, ou melhor dizendo, nas pernas cansadas de andar, no dia seguinte. No hotel cumpri as formalidades de praxe, desembaracei-me das bagagens e imediatamente fui cuidar do programa do dia seguinte. Lá havia até uma sala, com duas funcionárias para este propósito. Em primeiro lugar foi reservado para o dia seguinte um tour pela cidade seguido por um passeio pelo lago Léman, batizado de lago Genebra pelos vizinhos suíços. Perguntei à funcionária onde poderia comprar uma capa para guardar meus óculos, já que tinha perdido o original. Comentei que no Brasil as casas de ótica davam de graça e uma das moças comentou que lá era preciso pagar até o ar que se respirava. Depois de ter jantado voltei para contar, a propósito dos altos preços, que uma água mineral custava, não lembro se 6 ou 8 francos. Até ela ficou admirada com o alto preço. Voltando ao meu pedido: onde comprar um estojo para meus óculos, a funcionária entrou no Google , disse que só tinha downtown, deu-me um mapa, e escreveu num papel os turn on the right ou on the left (não me lembro) na rue du mont blanc, depois numa rua Berne, antes pegando um trem. Para pegar o tal trem tinha que tomar a van que trasnsportava os hóspedes hotel-aeroporto ou vice-versa e atravessa-lo para chegar à estação. Com tudo planejado, fui para o quarto, tomei um banho e vesti-me para ir ao cassino. Como era o fim da viagem minhas roupas já tinham sido mexidas e remexidas, e só então me lembrei que tinha levado uma roupa menos casual para este fim, que poderia ter usado para ir à Ópera em Viena. Mais uma vez tenho que dizer que não adianta chorar em cima de leite derramado. Não fui à Ópera, mas, fui ao cassino. De início já não gostei por ele estar localizado no subsolo do hotel. Para mim, a localização no subsolo deu impressão de clandestinidade uma vez que o hotel era tão grande. É claro que isto é puro preconceito, uma vez que o jogo é proibido no Brasil. Tive que mostrar meu passaporte, ou deixar lá na entrada, não me lembro. Eu e a moça que ficava na porta não estávamos nos entendendo porque ela falava muito pouco inglês, mas, uma mocinha, que não deveria ter mais de vinte anos serviu de interprete. Fiquei mal impressionada por ela ser tão jovem e estar jogando.

Nunca tinha entrado num cassino ( nem mesmo num bingo) mas já tinha visto uns filmes que mostravam cassinos todos glamourosos, começando pelo croupier. Num impecável smoking ele dizia: “mesdames et messieurs, faites vos jeux” e depois de ter girado a roleta cantava, por exemplo, “dix –rouge”, aliás o dez é preto. Lá nesse cassino não havia qualquer glamour, muito ao contrário, o ambiente era super deprê. As moças( as croupiers ) tinham um ar de tédio total, não falavam nada, e num pouco caso total giravam a roleta e depois passavam aquela espécie de rodinho, levando embora todas fichas. A casa tinha sido a ganhadora. Depois de ter deixado os 20 euros que me dispusera a gastar, (em francos deu mais de 20 e a mocinha insistiu para que eu fizesse variadas apostas), dei outra olhada no ambiente, para me certificar se minha primeira impressão (ambiente depressivo) estava correta e fui para meu quarto. Antes, tinha parado na recepção não sei para quê, e ouvi uma música sendo tocada que me era muito familiar. A despeito de todos os meus esforços não conseguia lembrar seu nome. Indagando, vim a saber que era a “Garota de Ipanema”. Nada mais adequado para este cinqüentenário da bossa nova.

O café da manhã neste hotel começava a ser servido às 6,30 horas e pontualmente neste horário entrei no refeitório. Tomei um farto café como se estivesse prevendo o alto gasto de calorias, andando, andando, andando, andando,……… Veneza tinha sido fichinha.

Tomei a van do hotel, fui para o aeroporto e atravessando-o, fui para a tal estação de trem. Precisei me informar como tomá-lo, já que havia uma composição enorme parada na estação. Quando cheguei na porta de embarque ela estava fechada. Fiquei olhando para a porta, feito tonta, até que vi um botão verde e outro vermelho escrito respectivamente: ouvrir e fermer (ou no particípio passado: ouvert e fermé, que significam abrir e fechar ou aberto e fechado). Depois de feita a descoberta, pressionei o botão verde, que era para abrir e entrei. Na primeira parada, conforme tinha sido instruída, desci e comecei a minha rotina destes meus 10 dias. Comecei a procurar a tal rua mont blanc , sempre perguntando, até virar à esquerda, ou a direita, para alcançar a rue de Berne onde encontraria a tal ótica. Finalmente cheguei ao destino. Entrei numa ótica que tinha uns óculos maravilhosos, todos com cara de caríssimos. Lá só tinha uma capa de couro puro que custava 60 francos. Perguntei se ele não tinha nada em plastic mas acho que por lá eles não trabalham com este material, afinal estamos falando de Genebra que, segundo disse uma guia, é a cidade mais cara do mundo. Muito gentilmente o sr. me disse que talvez eu achasse no Fulano, que tinha uma ótica localizada a não sei quantas quadras e onde eu chegaria lá depois de muitas viradas à direita ou à esquerda passando pelo Starbuck (não sei porque não esqueci desta indicação). Bem, de ótica em ótica, sem que ninguém trabalhasse com plastic, que evidentemente não combinava com aqueles óculos maravilhosos que nunca soube o preço, mas, aparentavam ser de alguns robustos cifrões, seguindo em frente até a rua X, virando à esquerda na rua Y e continuando sempre em frente por várias quadras, até chegar numa ótica que tinha uma capa de napa, ao acessivo preço de 9 francos. Fiz a compra na hora e agora tenho um elegante “protetor” para os meus óculos ostentando: na linha superior – JAQUES- e embaixo: Genève. Engraçado é que não tive coragem de comprar o guarda-chuva onde estava escrito VENEZIA mas o Jaques, Genève, eu acho muito elegante. Saí no lucro com minha perda, pela substituição, que em casa constatei que nem precisava, pois a tal capa não estava perdida, mas sim num lugar absurdamente inesperado. Creio que conheci o downtown de Genebra andando quilômetros, sempre em frente, com algumas viradas à esquerda, outras à direita, em busca de algo em plastic que definitivamente não se incorpora aos usos e costumes de genebrinos.

Depois de ter achado o que precisava, já que estava no universo dos relógios resolvi procurar um despertador digital Cassio, pois os meus já estão bem velhinhos. Sabia que lá não era o lugar ideal, pois relógios suíços e o que pretendia adquirir não têm nada em comum. Mesmo assim segui em frente, virando ou à esquerda ou à direita, conforme o que me indicavam, e nada. Confesso que fiquei mais impressionada com as óticas do que com as relojoarias. Os produtos vendidos por estas lojas não pareciam diferir muito das que encontro no Brasil. A precisão deve ser outra conversa, mas, a aparência não me deslumbrou da mesma forma que os óculos. Quanto ao despertador, nada de encontrar. Só me apresentavam aqueles despertadores comuns que pensei que nem mais existissem. Depois de muito entra e sai de lojas acabei encontrando uma loja que tinha uns três tipos. Gostei especialmente de um que, fechado, como se fosse um apetrecho de maquiagem, era ótimo para a gente levar em viagens, pois pelo seu tamanho cabia em qualquer bolsa. A vendedora e eu partimos então para os passos que se deve dar para marcar a hora do momento, a hora do despertar, desligar etc. Infelizmente tudo era feito na base de erros e acertos. Às vezes dava certo e outras não. Enquanto isso eu via o tempo passar e tinha que estar no local onde partiam os ônibus para os tours. Junte-se a isso um imenso cansaço por ter andado tanto tempo e a necessidade de parar em uma loja de souvenirs para levar alguma coisa de Genebra. Acabei desistindo do despertador digital, fiz minhas comprinhas e fui tomar o ônibus para o tour.

Pela primeira vez, em alguns anos de viagem, tive uma guia falando português. Isto até valeu o comentário de um senhor português que também nunca havia tido essa oportunidade. Aliás, contou ele que a população de Paris é de 2 milhões de habitantes e há lá 800 mil portugueses, (não sei se os números estão corretos mas foi essa a informação) e mesmo assim em Paris não fez um único tour com um guia falando a língua portuguesa. A nossa guia era casada com um português mas não falava a língua como os nativos do país, era de fácil intelecção, mais próxima da língua como falamos no Brasil.

O tour começou seguindo a ordem exata dos pontos turísticos que tinha assinalado nas minhas pesquisas e levado a folha impressa. Na região do lago encontra-se o jardim angaise, com seu relógio de flores e o Monumento Nacional. Preciso agora fazer um comentário a respeito da visão nestes tours. Por pouco deixava de ver o que estava sendo mostrado porque o ônibus passa rapidamente e as informações são muitas. Como a minha vista já não é uma Brastemp, não fosse o sr. português me mostrar estes pontos e não os teria visto. O bom mesmo é fazer como meu filho e minha nora: verdadeiras expedições exploratórias e tudo a pé. Como quem não tem cão caça com gato, continuei seguindo o roteiro confrontando com os dados que tinha levado. Cruzando a ponte do Mont Blanc, chegamos ao Monumento a Charles II de Brumswick. O monumento Brumswick é o mausoléu do Duque Carlos II de Brumswick falecido em Genebra, em 1873, e que legou a esta cidade a sua fortuna pessoal, elevada a mais de vinte milhões de francos, em ouro, e da qual uma parte serviu para a construção deste mausoléu. Disse a guia que esta não foi a única doação que a cidade recebeu, outras vieram de personagens de grande importância e que isto teria sido de um peso muito grande para a riqueza de Genebra.

Vimos, exteriormente, as organizações burocráticas como a ONU, OMC e a CRUZ VERMELHA. Li em algum site que por alguns euros é possível entrar nos bastidores destas organizações. Passamos também pelo Palácio da Prefeitura, pelo museu de História Natural, o Museu da Relojoaria, o Museu dos Instrumentos Musicais Antigos, a Universidade na Praça Nova e o Grande Teatro, onde está instalada a Ópera de Genebra. Em um determinado momento do tour a gente é transferido para um bondinho e, sendo esse meio de transporte mais lento, é possível ver mais atentamente os pontos turísticos, que, segundo a minha página impressa estava sendo seguida ipsis litteris. Paramos em frente a Catedral de São Pedro que conforme já tinha lido, ela está para Genebra como Notre Dame para Paris. Esta catedral começou a ser construída no século XI, durante a época romana, e acabada durante a época gótica. Não posso fazer qualquer comentário pessoal sobre ela porque, sob a alegação de que estávamos atrasados para o embarque no barco que nos levaria através do lago Léman (ou Genebra), não pudemos entrar na Catedral. Esta foi uma grande falha no meu tour .

No lago Léman vimos o famoso jato de água (jette d’eau) do qual os genebrinos têm grande orgulho. Não escapa o complexo de Itu, como o maior do mundo. O jato de água tem 140m. de altura, é alimentado pelo lago, consome 500 litros por segundo, e a velocidade do jato e de 200Km/h. A coluna de água é de 8 toneladas. É bonitinho, mas se você bobear, deixa de vê-lo, se sua vista já não for muito boa. Já vi vários espetáculos de águas dançantes, multi coloridas e estas sim me impressionaram. Talvez o orgulho de terem o maior jato d’água do mundo seja em virtude de sua altura, que realmente é imensa.

O que realmente me impressionou foi a quantidade de mansões construídas à beira do lago. Uma delas foi a residência do presidente dos Estados Unidos, Eisenhower, quando da conferência dos “Quatro Grandes, em Genebra, em 1955. Foi igualmente a residência de Ronald Reagan, em 1985, quando da conferência sobre o desarmamento, em Genebra, da qual também participou Michael Gorbatchev. É incrível como isto parece ter acontecido há tanto tempo, embora ali tivessem ocorridos fatos históricos há quase dois séculos, em prédios que ainda são mencionados. Refiro-me à imperatriz Sissi, a quem me referi no relato sobre Viena. Ela foi assassinada na calçada em frente ao hotel Beau Rivage sobre o qual encontrei as seguintes referências: “Para se hospedar em grande estilo fique no Hotel Beau Rivage ou no Hotel d’Angleterre, ambos de frente para o lago”, indicação que encontrei na Internet, quando buscava informações sobre Genebra. Há ainda mais: na margem do lago, a Casa branca, em frente da ONU, foi dada por Napoleão à imperatriz Josefina, em 1811. A casa veio posteriormente a pertencer a Cartier. Assim, de Napoleão, Josefina, Rotschild (dono de um castelo no local), Cartier, e vários,vários, outros nomes famosos, Genebra desfila seu passado e presente de high society. Um prato cheio para quem se importa com essas coisas. Só mais uma informação ainda quanto ao lago Léman: quando faz bom tempo, de lá podemos ver o maciço do Monte Branco que, afinal tem uma altitude pra lá de considerável:4807m.

Terminada a travessia do lago, volta ao hotel. A estação de trem era bem próxima e com facilidade o tomei . O problema surgiu na hora de descer. No outro havia os botões para abrir e fechar a porta, mas neste não encontrei, e portanto o pulo do gato que pensei já ter dominado não valeu. Tive mais uma vez que perguntar e um gentil rapazinho informou que alguns trens eram mais novos, outros mais antigos e daí a diferença. O que me trouxera era novinho em folha e este já era mais velhinho. Desci do trem mais velhinho e fui para o aeroporto para pegar a van que me levaria ao hotel. Nem vou contar a trapalhada que foi, eu e uma jovem senhora brasileira, que tinha ido assistir à formatura da filha em Montreux e também não achava ninguém para perguntar como se virar no labirinto do aeroporto. Minha cabeça naquela altura já se recusava a obedecer meus comandos. Estava exausta e não conseguia mais raciocinar. Mas, aos trancos e barrancos consegui chegar ao hotel. Jantei, pedi à recepcionista que me chamasse às 3.15 da madrugada porque precisava estar no aeroporto as 4.55 e também já marcasse um táxi porque naquele horário não funcionavam as vans do hotel. Ela anotou tudo direitinho e disse que me seria dado um package de café da manhã já que eu tinha prepaid. Em Viena também tinha sido assim.

O que diferiu terrivelmente foi o motorista que me conduziu. Na hora combinada adentrou o motorista no hotel, com cara mal humorada e que à minha pergunta: parlez vous d’anglais,monsieur? emitiu num urro: noooooooon. Como o taxímetro já estava marcando 14 francos aproximadamente, quando eu entrei, perguntei se ele já começava com 13. A resposta foi que começava com 6. Isto significa que ele encostou o táxi, levantou o taxímetro provavelmente quando chegou ao hotel, e só entrou no hotel exatamente na hora que eu tinha marcado. Quando chegamos ao aeroporto marcava não sei quantos francos e precisava saber quanto era em euros. Ele vociferou: são 15 porque temos que considerar as malas, apontando para a minha pouca bagagem, sem que eu tivesse dito qualquer coisa. Não deu para não pensar no meu motorista em Viena e sua bela educação, aparência, elegância, além da música clássica, que tinha sido o fundo musical no caminho para o aeroporto.

Embarcando no avião que me levaria de volta ao Brasil minha viagem terminou. Restaram estas lembranças, que, para mim, foram deliciosas, e uma felicidade imensa por ter ido novamente ao Velho Mundo, tão repleto de encanto e me trazendo tantas emoções. Ao mesmo tempo em que este relato ficará gravado em minha memória e também num CD, ao faze-lo me diverti muito, e mais isso deixo registrado neste meu “quase” relatório.