Tenho setenta anos e como atividades constantes vou à academia, fazer musculação três vezes por semana e, para por o papo em dia, caminho com uma amiga, por 2 km. uma vez por semana. Comecei a fazer musculação porque carregar um pacote de 5 kg. de arroz era muito pesado. Agora, após quase cinco anos de academia, carrego 10 kgs. com a maior facilidade. Atualmente faço mais exercícios de perna do que de pesos porque comecei a ter muita dor na coluna. Outro dia, minha neta de 9 anos dormiu aqui em casa e estranhou o fato de eu me despedir dela porque ia para a academia. Vim a saber que ela estranhou o fato, frente a minha idade. Vou para a academia a pé porque ela fica a 15minutos de casa. O duro é quando a temperatura está a 8 graus C. Faço também aulas de canto que me obrigam a treinar diariamente e assim exercito minha memória, porque preciso decorar uma música por semana. Diariamente leio o jornal e nas horas ociosas leio o que me cai na mão.

Agora, voltando no tempo por muitos anos, digo que estudar foi o que sempre mais gostei de fazer em minha vida. Quando estava no terceiro ano do que hoje se chama ensino médio fazia o colégio à tarde, o cursinho para a faculdade de Direito três vezes por semana, no período da manhã, e nos outros dois dias fazia inglês na União Cultural Brasil- Estados Unidos e francês na Aliança Francesa. Duas noites por semana eu estudava alemão no Instituto Goethe. Certo dia minha mãe disse que era melhor eu parar os cursos de línguas porque não tinha mais tempo para dar uma palavra em casa e estava num humor insuportável. Achei que ela tinha razão e parei os cursos de línguas. Alemão, estudei por um semestre, e de qualquer forma acho que não continuaria porque a língua é muito difícil.

Prestei vestibular na Faculdade de Direito do Largo São Francisco e como o curso era só de manhã arrumei um emprego, no período da noite, como professora de inglês, aos 19 anos. Fiquei nesta escola até o terceiro ano, quando comecei a trabalhar num escritório de advocacia como estagiária. Saí-me muito bem como advogada, e gostava do que fazia. Os tempos eram outros (1962) e naquela época não era comum mulheres casadas trabalharem fora, só como professora. Assim, quando me casei, deixei a advocacia e voltei a dar algumas aulas de inglês. Para dizer a verdade o preconceito quanto a mulheres profissionais era bem grande. Uma vez candidatei-me a uma vaga, como advogada trabalhista, para o qual era bastante qualificada, em uma dessas firmas de colocação de empregos. Logo na entrevista inicial fui informada de que a indústria que buscava o profissional para a vaga que me candidatara, não aceitava mulheres para o cargo porque só havia operários homens na indústria. Foi então que voltei a dar aulas. Nem isto fiz por muito tempo porque vieram os filhos e fiquei mãe 24h. por dia. Em 1979, fiquei muito doente, após a morte do meu pai, e um dia, quando em choro convulsivo, pela violenta depressão, perguntei a meu marido se, como sempre tinha gostado muito de estudar, não podia fazer uma nova faculdade. Tudo acertado, fui fazer jornalismo porque sempre gostei muito de escrever. Tinha 42 anos de idade e os filhos já estavam mais crescidinhos. Depois de levá-los a escola, ia para a faculdade. Gostei muito do curso e aprendi muita coisa que hoje não saberia se não tivesse estudado naquela ocasião. Terminei em 1985, mas não me profissionalizei. Em 1987 fiz uma viagem de um mês para a Inglaterra, para aperfeiçoar meu inglês. Era um projeto muito antigo: ir para aquele país, aperfeiçoar meu inglês, e aproveitar para dar um pulinho à Paris, de onde estaria bem próxima. A ida à Paris é um capítulo à parte. Meu Deus, que deslumbramento. Foi como uma imersão na História. Tudo que tinha lido e estudado, por anos, tornou-se vivo diante dos meus olhos. Passei a noite em claro, sem fechar os olhos durante a noite toda, apenas rememorando tudo que tinha visto. Emoção igual nunca mais vim a sentir.

Em finais de l990 comecei a ler nos jornais que estavam abertas as inscrições para a Fuvest. Um dia decidi: ia prestar vestibular para a faculdade de História. Estudei durante dois meses Português e História, prestei o vestibular e entrei na segunda lista. Fiz um curso brilhante, como o fizera no Jornalismo. Não sei se é desculpa ou se realmente a nossa capacidade intelectual tem um declínio após os 40 anos. O fato é que, do curso de Direito, até hoje me lembro de exemplos dados pelos professores, embora fosse uma aluna mediana, pois trabalhava, ia a festas, fazia política acadêmica, vivia o ambiente universitário fervilhante, namorava, enfim, dispersava-me com muitas coisas além dos estudos. Quando fiz as outras duas faculdades, não tinha nada para dispersar-me e talvez por isto dedicava-me tanto aos estudos, que pude fazer os cursos com brilhantismo.

Mas todo este brilhantismo com os anos se esvaiu. Da faculdade de jornalismo, que cursei aos quarenta anos, lembro-me alguma coisa, e da faculdade de História, que cursei com mais de cinqüenta anos pouco me lembro. O mesmo aconteceu com o aprendizado do espanhol. Como na faculdade de História o volume de leituras em espanhol era muito grande, a ponto de por vezes não me lembrar se tinha lido em português, ou na outra língua, e não falasse nada resolvi, em 1994, ir para Madrid durante um mês para aprender a falar espanhol. Lá revirei a cidade e nos fins de semana ia para lugares como Toledo ou freqüentava muito a Atocha e suas imediações, aonde ia sempre tomar um chopinho e às vezes até fazia lição. Um fim de semana fui à Roma, ocasião em que conheci a cidade. Voltei de Madrid falando fluentemente,mas, agora, passados 14 anos, não falo mais nada da língua, tanto que vou me inscrever num curso de espanhol próximo a minha casa.

Retomando aos cursos de línguas,e conseqüentes idas à Europa, desde l994 não viajei mais por aquele continente, somente pelo Brasil,especialmente pelas praias do nordeste. Este ano (2008 ) resolvi que iria conhecer outras cidades outras cidades da Europa que me despertavam grande interesse. Resolução tomada e cumprida maravilhosamente. Na volta resolvi escrever sobre a viagem tão deliciosa que havia feito, e daí o meu “quase” relatório.

Odette Serra Cypriano

4 Respostas to “Odette Cypriano”

  1. Lys Says:

    E que seja muito bem vinda a blogosfera !

    Espero que esse seja apenas o inicio de uma grande e feliz jornada virtual !

    beijos,
    Lys

  2. Cadinho RoCo Says:

    É disso que a blogosfera de fato precisa. Gente apaixonada pela vida, dinâmica e com capacidade de expressão, conhecimento de causa e disposição. É certo que seu blog irá contribuir e estimular muita gente a avançar no conhecimento e no querer da vida comprometida com seu próprio crescimento.
    Os blogs têm poder enorme de comunicação e podem ser utilizados para causas pra lá de importantes e oportunas.
    Cadinho RoCo


  3. Olá. adorei seu relato. Corajoso e sincero. Pretendo acompanhar suas vivências. Posso? Bjkª. Elza

  4. Sérgio Says:

    É verdade. Você é imbatível, incansável e inigualável. Continue treinando o corpo e exercitanda os neurônios, trazendo mais histórias bacanas para nós.
    beijos e boa sorte, Sérgio Avellar

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